PUC, Vereadora Marielle e Ivone Lara: o racismo, a injustiça e a falta de bom senso

6 de junho de 2018 Sem categoria 0 Comments

Por William Douglas – juiz federal/RJ, professor e escritor

Todos lamentamos profundamente as notícias de manifestações racistas nos Jogos Universitários, que devem ser objeto de apuração nos meios universitários e também pela Polícia. Estes fatos ocorreram não muito tempo depois de outro episódio de racismo na FGV/SP e da polêmica sobre a escolha de Fabiana Cozza para interpretar Dona Ivone Lara.

Racismo é crime e sempre inaceitável, venha de onde vier, praticado por quem o praticar. O aumento das notícias tem seu lado positivo, que é a maior percepção e rejeição social em relação ao tema. A má administração do tema pode, porém, potencializar o problema ao invés de diminui-lo. Não se pode abrir mão do bom senso ao tratar de nenhum tema público, inclusive este.

Felizmente, a PUC-Rio já constituiu Comissão Disciplinar para averiguar as informações e, caso confirmada a veracidade, haver responsabilização no plano acadêmico. A FGV/SP, por exemplo, suspendeu o aluno que praticou racismo por três meses. Esperamos que a PUC-Rio apure e puna, doa em quem doer, de forma exemplar. Obviamente, já que temos uma Constituição que nos ilumina, serão necessárias firmeza e serenidade, assim como o basilar seguimento dos princípios do contraditório e da ampla defesa.

O que me assusta, e por isso escrevo, é a falta de bom senso que está cada vez mais grave. Ninguém discute que racismo tem que ser combatido, isso é o óbvio. Mas há coisas óbvias que estão sendo perdidas no caso. Cito-as. Tivemos notícias de que alunos da PUC foram hostilizados em vias públicas tão somente pelo fato de serem alunos da Instituição. Nas redes, li algumas hashtags #PucRacista. Isso é muito sério.

Não podemos, para combater o mal, ser instrumentos ou veículos dele.

Como disse Friedrich Nietzsche, em Para Além do Bem e do Mal, “aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você”.

É inaceitável permitir generalizações e violências, sempre. Qualquer resposta ao racismo deve passar pelo sistema legal a fim de se garantir as cautelas mínimas. Ninguém pode exercer arbitrariamente suas próprias razões. Não é porque um aluno  estuda na PUC que é racista. Qualquer pessoa de mínimo bom senso de realidade sabe que há racistas e não racistas em todos os lugares. Atire a primeira pedra a Universidade que não tiver nenhum racista. Permitir ataques genéricos é reproduzir a cultura de generalização que faz parte de praticamente todas as formas de discriminação. Generalizar aumenta o problema em lugar de diminui-lo.

Ao lado dessa constatação, uma ainda pior, posto que reveladora de extrema injustiça. Sou membro da Educafro há 20 anos e uma das Universidades que mais bolsas concedeu a negros e carentes é justamente a PUC-Rio. A Vereadora Marielle, por exemplo, cursou a PUC-Rio com bolsa integral. Assim como ela, literalmente várias centenas de pretos e pardos tiveram educação de primeira qualidade à qual jamais teriam acesso não fosse a postura da Instituição.

Há alunos racistas na PUC? Sim, mas não menos que em outras Instituições de Ensino Superior. O que raramente existe em outras é justamente um compromisso tão grande com a inclusão social e racial, até mesmo fruto de sua matriz cristã. Postar #PucRacista é uma injustiça profunda diante do que a Universidade vem fazendo ao longo dos anos.

Venho a público dizer que não sou nem fui aluno ou professor na PUC-Rio, nem tenho qualquer motivo para defendê-la senão o sentimento de rejeição a uma injustiça, pois há décadas acompanho a enorme quantidade de bolsas que ela concede justamente para pobres e negros.

A PUC-Rio foi o berço dos pré-vestibulares comunitários para negros e carentes, a primeira instituição particular brasileira a instituir política de acesso e permanência de alunos negros e carentes, mediante concessão de bolsas de estudo e auxílio financeiro para custeio de despesas de alunos bolsistas, projeto instituído por meio do FESP (Fundo Emergencial de Solidariedade da PUC-Rio), e a primeira instituição a oferecer disciplina sobre ações afirmativas, no curso de graduação em Direito. Suas concessões de bolsa são absurdamente altas.

Talvez esse maior afluxo intencional de pobres, somado à alta qualidade de ensino que atrai a elite, tenha trazido para a PUC-Rio uma aceleração da exposição das graves fissuras sociais que temos.

Isso potencializa o conflito, mas igualmente permite seu enfrentamento. Até excessos eventuais de alunos pouco afeitos a convivência com o diferente podem ser fruto da louvável escolha da Instituição por vir fazendo sua parte. Por isso, impingir sobre ela e sobre todos que a compõem, de forma genérica, a pecha de racista é leviano, injusto e lamentável.

O assunto Ivone Lara também me parece exemplo de falta de bom senso, mas não quero aprofundar esse debate aqui para não tornar muito extensa uma manifestação que é, basicamente, para

(a) citar as centenas de bolsas para negros que a PUC-Rio concede regularmente e suas ótimas iniciativas na questão racial, e

(b) criticar os ataques indiscriminados feitos a alunos da Instituição apenas porque ali estudam, o que é verdadeiro nonsense.

Assim como a PUC, acredito que o racismo e a violência que ainda corroem a sociedade brasileira devem ser enfrentados por medidas repressivas e inclusivas. A PUC-Rio já tem excelente atuação na inclusão, e agora deverá reprimir também, dentro dos trâmites devidos.

Porém, os ataques à PUC como Instituição e aos seus alunos de um modo geral não podem passar sem crítica, pois são injustos, por tolice ou leviandade.

Não podemos admitir que o necessário combate ao mal permita que radicais sem qualquer compromisso com os princípios constitucionais e de direitos humanos se tornem juízes e autoexecutores de ofensas e punições à margem da lei e do bom senso. Não podemos permitir ou sufragar comportamentos de turba ou manada direcionados indiscriminadamente a uma comunidade, ainda mais quando ela tem sido pioneira e referência justamente na busca pela promoção da diversidade e da igualdade racial.