Um começo de história

por William Douglas

Este ano foi um tanto esquisito. Vi muitos amigos passando por dificuldades grandes, muita gente reclamando.

O mundo anda mudando em velocidade tão vertiginosa que nós, nossos conhecidos e nossas instituições (escolas, empresas, governo) estamos tendo dificuldade de lidar com elas de modo saudável.

As evoluções tecnológicas não pareceram fazer efeito nenhum na alma humana, senão torná-la até mais atribulada. Fomos à Lua, mas ainda não nos conquistamos, nem a paz, nem mesmo o afeto do vizinho.

Para alguns, é até bom que se encerre 2010! Ouvi isso de várias pessoas. Não sei para você, mas, ao menos para mim, foi um ano difícil.

Não sei em quem você votou, mas o fato de ter havido uma eleição não deixa de ser boa notícia. A Copa, infelizmente, ficou para a Espanha. No meu caso, escrevo esta mensagem sem saber se o Fluminense será campeão, para o que “bastará” que vença o Guarani. Não vou atualizar o texto na segunda que vem. Que bom que existe futebol e que fomos tão bem. Espero que sejamos campeões, mas quem esteve a 98% de probabilidade de cair já passou por momentos mais difíceis.

Este ano, contudo, me trouxe mais um filho, e um acidente grave com o do meio, que não deu em nada, mercê de Deus. Os problemas de saúde na família foram descobertos e tratados. A vida andou. Cometi muitos erros, mas, dos mais graves, me protegeu o Pai.

Este ano esquisito termina com todos com razoável saúde, trabalhando, enfrentando crises e superando-as na medida do possível. Chegamos ao fim dele, sobrevivemos, estamos seguindo. Então, ao mesmo tempo em que foi duro, confessemos: também foi um bom ano.

Ao menos para mim, ao menos para a Impetus. Não sei para você.

No caso do Estado do Rio, onde funciona nossa sede, tivemos uma vitória importante contra a criminalidade, que se for acompanhada das medidas consequentes e necessárias, podem resultar em uma nova cara para a cidade, o Estado e o país. Tomara. Ao menos a população está alegre e esperançosa.

E se este texto não parece esperançoso, repare: não quero ser ufanista, nem fingir que as coisas não são difíceis. Elas o são. Por isso eu as menciono. Há lutas, muitas. Mas, creio que serve como texto a ser enviado no limiar do novo ano para recordar as coisas básicas.

Estamos vivos, e esse é um ótimo começo. As lutas nos acompanham por anos e anos, e as encontraremos novamente em 2011. Não peçamos que elas não venham, sejamos realistas. Mas, mantenhamos a esperança, a fé, o trabalho, os valores, a certeza de que a caminhada compensa.

Isto é o que eu gostaria de compartilhar com você: um ano que pareceu difícil nos trouxe coisas boas. É sempre assim.

Que 2011 venha a nós, mas, em especial, que nos dirijamos ao novo ano conscientes de que ele é apenas massa de modelar.
Creio muito no barro, mas creio mais ainda nas mãos de quem, disposto a dar forma aos sonhos, coloca nele suas mãos para moldá-lo.
Confio em quem imagina uma forma e suja as mãos, força a mente e sua o corpo para dar vida ao pensamento. Se Adão foi soprado pelo divino para ter fôlego, nós somos o sopro da divindade atuando naquilo em que pomos nossas mãos. Nosso sopro dá vida. Em tudo o que respiramos, pomos milagres em marcha.
Sempre foram estes os que mudaram a realidade: os que moldam o barro ao invés de reclamar dele.
Que nós sejamos assim por mais um ano, recebendo o imponderável com a mesma disposição que o oleiro recebe a massa disforme do produto da terra.
Que na Terra a modelar, no futuro a escrever, possamos imaginar as formas, sonhar desenhos belos e nos encantarmos enquanto pomos a mão na massa. Que sopremos nosso fôlego em tudo que desejarmos que obtenha vida.
O amanhã, o ano que vem chegando, nada mais é do que isso: barro de moldar. E se precisarmos mudar para moldar melhor, que sejamos nós mesmos massa de modelar nas mãos de Deus, da vida, do destino, daquilo que você acredita que nos acompanha pela grande jornada.
Sejamos móveis, moldáveis, mutáveis, mudadores, agentes de transformação de terra em arte, da Terra em casa, do porvir em algo ainda mais fascinante do que o já fascinante presente: esse lugar onde nos movemos em direção ao misterioso.

Que 2011 revele seus mistérios de forma branda, mas que seja firme nossa disposição de torná-lo um ano melhor para todos. Moldando o barro e soprando a vida.