Tudo na Vida tem um Propósito

por Francisco Dirceu Barros

“Um cuidadoso exame de todas as nossas experiências passadas pode revelar o fato surpreendente de que tudo o que aconteceu foi para o nosso bem.”

(Napoleon Hill)

Era meu primeiro concurso e a chance de tornar real um sonho longamente perseguido, afinal, cursei Direito idealizando ser Promotor de Justiça. O concurso tinha cinco fases. Após superar várias fases, fui fazer a última delas; precisava tirar nota 5; dos 4.700 (quatro mil e setecentos) candidatos restaram apenas 128 (cento e vinte oito) e eu estava entre os primeiros colocados; resultado: fui reprovado, tirei a seguinte nota: 4,98.

Essa poderia ter sido uma história de fracasso se eu não tivesse em mente:

  1. um grande sonho: tornar-me Promotor de Justiça;
  2. humildade para começar tudo de novo;
  3. determinação e capacidade de renúncia;
  4. a noção de que cada fracasso é uma bênção disfarçada, pois nos dá sempre uma lição que, de outra maneira, talvez nunca apreendêssemos. Quase todos os fracassos são apenas derrotas temporárias, e se nós somos capazes de ter o erro como aliado, vamos logo perceber que nenhum homem terá uma chance para desfrutar um triunfo permanente se não começar por olhar-se em um espelho para descobrir a causa real de todos os seus erros.

Ao repensar a prova – objeto da reprovação supramencionada – tive uma grande surpresa: das quatro questões, simplesmente não resolvi uma questão de Direito Eleitoral, perdi dois pontos e saí reprovado por 0,02.

Os meus amigos do grupo de estudo, que puderam testemunhar o meu esforço quase sobre humano, os anos de estudo e o tempo que passei só alimentando um ideal, foram todos unânimes: “isso não é possível”, “todo concurso é desse jeito”, “não vamos mais estudar”, e eu, naquele momento de tristeza afirmei: “Eu começo a estudar hoje mesmo e, um dia, ainda irei escrever um livro de Direito Eleitoral.”

A frase, dita como desabafo, mas em forma de brincadeira, ficou gravada no meu subconsciente e comecei a estudar, a fazer anotações e resoluções de questões que eram cobradas nos mais variados concursos jurídicos. Tempos depois, já tendo enfim assumido o cargo de Promotor de Justiça, percebi que a experiência que acumulei durante os vários anos, em conjunto com a grande aprendizagem que auferi lecionando em cursos preparatórios para ingresso nas principais carreiras jurídicas, deveria ser repassada para jovens que sonham em passar em concurso público, surgiu assim a série de livros destinados a concursos jurídicos.

Foi assim, também, que tornei o Direito Eleitoral uma das minhas matérias favoritas; aprendi que quem vai prestar concurso público não pode discriminar nenhuma matéria, nem também ser especialista em uma determinada área. Tinha especialização em duas áreas e mestrado em outra e fui reprovado em uma matéria que achava de pouca importância.

Hoje, eu tenho certeza que o Direito Eleitoral não é só importante para os concursos, é também essencial para o resgate da cidadania e aperfeiçoamento do regime democrático. E o livro de Direito Eleitoral, hoje, está contribuindo com o sonho de vários jovens.

Dessa história pude retirar duas grandes lições

Primeira lição: especialize as suas deficiências. Identifique onde você foi reprovado e se especialize em suas deficiências. É um erro grave e fatal querer estudar apenas o que você gosta, nossa mente não tem limite, nós podemos gostar e aprender tudo. Eu não gostava de Direito Eleitoral, hoje, eu amo o Direito Eleitoral.

Segunda lição: tudo na vida tem um propósito. Deus é justo e perfeito e você tem que acreditar que “tudo tem um propósito”. Se Deus demora a atender seu pedido, é porque Ele tem uma missão: fazer endurecer mais a nossa resistência espiritual por meio da espera ou então Ele quer fazer um milagre maior. Tudo tem seu tempo e as demoras de Deus são sempre propositadas.

Existe uma tendência natural de que quem faz concursos querer ficar o mais próximo possível de seu Estado. Pois bem, como estava muito bem colocado, antes da última fase do concurso supracitado, peguei um mapa e identifiquei qual era a comarca de primeira instância que eu iria escolher. Não era arrogância mais se eu tirasse a nota mínima, que era 5, ficaria em primeiro lugar, geralmente o primeiro colocado é também o primeiro que escolhe a comarca que irá assumir. Marquei de vermelho e pensei “vai ser essa”.

Um ano e meio após ter sido reprovado, estava assistindo a TV e ouvi a notícia “o Promotor de Justiça da comarca ‘x’ foi assassinado”, automaticamente eu corri até ao escritório e comecei a vasculhar as gavetas atrás daquele mapa e encontrei a comarca “x” que estava grifada de vermelho.

Caí de joelho e rezei agradecendo a meu Deus por não ter passado naquele concurso.


*Francisco Dirceu Barros é mestre em Direito. Especialista em Direito Penal e Processo Penal. Promotor de Justiça Criminal. Promotor de Justiça Eleitoral com vasta experiência em cursos preparatórios aos concursos do Ministério Público e Magistratura, lecionando as disciplinas de Direito Eleitoral, Direito Penal, Processo Penal, Legislação Especial e Direito Constitucional.