Saudade da Mãe…

por William Douglas

Maio, mês das mães. Como homenagem, transcrevo um trecho do livro A Última Carta do Tenente, onde abro meu coração e fala da minha nas palavras do personagem da história:

“Só descobri o valor que tem a mãe vendo a minha, no CTI, vomitando sangue. Quando ela finalmente partiu é que saí às ruas para dizer aos filhos: compreendam, corram, visitem-nas, abracem-nas, ouçam suas vozes enquanto não estiverem sofrendo dor intensa. Conversem com suas mães enquanto não estiverem mortas ou entubadas.

Saibam todos, cujas mães não tiverem câncer, que a gente nunca visita a mãe o suficiente. Tudo o que elas nos dão, por um preço bem barato, não pode ser pago com poucos sorrisos nem com raras visitas.

Não haverá, no mundo, abraços que bastem para quitar as noites de insônia, nem as vezes em que a mãe da gente nos procurou em delegacias e hospitais, só porque não avisamos a hora de chegar ou porque estávamos com alguma menininha, ali perto da cidade. Nem que levássemos gerânios e flores, uma a cada dia, pagaríamos o seio dolorido ou em carne viva com que elas nos amamentavam, as noites mal dormidas, as noites no hospital, a comida na mesa, o banho na hora. Nada paga as molecagens, a ingratidão, as ofensas, a incompreensão ou qualquer outra coisa que elas, em silêncio, suportaram anos a fio.

Nada paga, na contabilidade do dever de filho, as contas que a mãe saldou, os parcelamentos que fez, as vezes em que foi ao colégio, os tombos que levou, os sacrifícios, a solidão, as renúncias e as brigas com o marido, tudo pelos filhos.

Todos os que não estiverem com a mãe morta ou em um CTI fiquem atentos! Corram, ainda é tempo!

Veja, querida, como estou me perdendo em minha carta: choro pela minha mãe!

Eu me lembro disso; lembro, sim. No quartel, depois de uma corrida em que desidratei, chorei, chamando por ela. Foi quando entendi o famoso “eu quero a minha mãe”. Eu já o disse antes, com a mãe viva. Hoje, digo novamente. A dor intensa nos remete ao que é mais básico… a gente pensa na mãe. Pensa, sim.

Você não imagina quantas saudades dela senti. A saudade da mãe vive à espreita como um gato, um intruso. Um assaltante que rouba a paz só pertencente a quem tem todos que ama. A saudade da mãe se esconde entre as portas e se descobre de repente, no meio da noite, no alojamento do barco, enquanto se põe o uniforme. Não vem nos momentos que seriam de se esperar: a saudade da mãe é tão má que espera o instante desatento, quando foge do túmulo e nos incomoda e maltrata. Pior, é tão passadoura que não nos permite chorar sequer uma lágrima. Uma lágrima que corresse nos lavaria e levaria uma dor tão grande. A saudade da mãe, não! Ela fica doendo, nas horas mais estranhas e sequer é chorada. Ela fica por aqui para nos surpreender outra hora, para garantir, amanhã, uma outra angústia.

Todavia, isto é sofrimento pretérito. Verei mamãe em breve. Desta vez não será só uma visita. Conversaremos sem pressa.”