Palavras sobre a morte

por Martin Luther King

E assim, venho, nesta tarde, para dizer a todos aqui reunidos que, apesar da escuridão desta hora, não devemos nos desesperar. Não devemos endurecer (…). Não, não devemos perder a fé (…). Permitam-se agora dirigir uma palavra às famílias de luto. É praticamente impossível dizer algo que possa consolá-los nesta hora tão difícil e que possa dissipar as profundas nuvens de desilusão que encobrem os céus de suas mentes. Mas espero que vocês possam encontrar um pouco de conforto na universalidade desta experiência. A morte vem para todos os indivíduos. A morte é espantosamente democrática. Não serve aristocraticamente a poucos, mas democraticamente a todos. Morrem os reis e morrem os mendigos; morrem os ricos e os pobres; morrem os velhos e os jovens. A morte vem para o inocente e para o culpado. A morte é o irredutível denominador comum de todos os homens.

Espero que vocês possam encontrar algum conforto na afirmação cristã de que a morte não é um fim. A morte não é o ponto final da grandiosa sentença da vida, mas uma vírgula que a pontua diante de um significado mais sublime. A morte não é um beco sem saída que leva a humanidade a um estado de total anulação, mas uma porta aberta para a vida eterna.

Permitam que essa fé audaciosa, que essa invencível suposição, lhes fortaleça nesses dias de provação.

Agora, para concluir, eu lhes digo: a vida é dura, às vezes tão dura quanto aço temperado. Há momentos difíceis e desesperadores. Como as águas dos rios, a vida tem períodos de seca e de inundação. Como o contínuo ciclo das estações, a vida tem o suave calor dos verões e o frio cortante dos invernos (Sim). E se nos mantivermos firmes, descobriremos que Deus está do nosso lado e que Deus pode nos levar da fadiga do

desespero ao alívio da esperança e transformar os vales sombrios e desolados nas iluminadas veredas da paz interior.


Sermão sobre a morte de quatro meninas proferido por Martin Luther King Jr. em 18 de setembro de 1963. O texto é parte da transcrição da palavra proferida por Martin Luther King Jr. no velório de três meninas assassinadas em uma igreja em ataque da Ku Klux Klan, em Birminghan.

Fonte: KING JR., Martin Luther. Um apelo à consciência: os melhores discursos de Martin Luther King. Org.: Clayborne Carson e Kris Shepard. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006.