Os males do autoritarismo científico e da intolerância intelectual

por Gustavo Felipe Garcia

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Ao ensejo dos intensos debates sobre a liberdade de expressão e a sua notória relevância, é também com muito lamento que se observa, de forma cada vez mais nociva, em parte do âmbito científico, o autoritarismo das ideias, a perseguição e a intolerância da divergência, a vaidade, o orgulho e a soberba intelectuais, impregnando o pensamento doutrinário.

Vive-se um momento delicado e perigoso, em que verdadeiros “rótulos” são impostos às pessoas, por circunstâncias inusitadas, como, por exemplo, até mesmo discorrer sobre certo tema, citar determinada obra ou autor, defender uma posição, seguir certa corrente de pensamento ou ter determinada formação.

Não se trata, infelizmente, de exagero, mas de realidade, ainda que praticada normalmente, com sutilezas.

Instaura-se, por vezes, uma impressionante “caça às bruxas”, taxando de “inimigo”, a ser perseguido e expulso do debate, alguém que simplesmente pensa e argumenta de modo diferente.

Nota-se que o autoritarismo ideológico, a falta de humildade intelectual, a rejeição ao pluralismo de ideias e ao debate democrático têm se acentuado, de modo lastimável, com consequências desastrosas não só às instituições, mas a toda a sociedade.

Isso para não lembrar das divergências no plano científico que, em alguns casos, chegam a ser levadas ao campo pessoal, com a artificial constituição maniqueísta, de grupos do “bem”, integrado por aqueles que concordam com as posições doutrinárias e ideológicas defendidas, e do “mal”, formado por aqueles que ousam discordar e adotar outros argumentos. Estes merecem o extermínio do convívio acadêmico, sem direito de externar as suas convicções e de demonstrar os motivos de pensar de modo diverso.

O autoritarismo científico chega a ser contraditório, ao pregar, em teoria, valores como liberdade, igualdade, solidariedade, defender direitos humanos, mas, em termos concretos e práticos, no dia a dia, fazer justamente o oposto, concretizando o julgamento sumário, a perseguição ideológica, o monopólio do pensamento, a criação de grupos fechados de poder e o chamado aparelhamento institucional.

Esquece-se que o debate harmonioso, equânime, plural e de boa-fé, o respeito às divergências e a possibilidade de se defender pensamentos distintos são necessários à evolução científica, ao progresso intelectual e inerentes ao próprio regime democrático, o qual não deve ficar somente em palavras, mas ser vivido e praticado com sinceridade.

Impressiona a agressividade e a soberba por vezes existente, já tendo, em alguns casos, impregnado mentes, tornando supostamente normais atitudes frontalmente incompatíveis com o respeito ao que é diferente e contrárias ao equilíbrio no convívio social.

Não se percebe o ponde a que se tem chegado, a gravidade das consequências, a miopia de se achar superior aos demais, únicos com razão em tudo, merecendo, os que divergem dos supostos “donos da verdade”, o silêncio, a “masmorra”e a exclusão.

Esquece-se, com isso, a sábia advertência de que a altivez do espírito precede a queda.

A democracia, como é evidente, não deve ficar limitada ao âmbito estrito da política governamental, mas se estender a todos os setores da vida em sociedade.

Ainda há tempo de se conscientizar, reagir e mudar, com diálogo, liberdade e respeito, para o bem do crescimento científico.


Gustavo Felipe Barbosa Garcia é livre-docente em direito pela USP e pós-doutor em direito pela Universidade de Sevilha. É membro da Academia Brasileira de Direito do Trabalho. Foi juiz do trabalho e procurador do Ministério Público da União.

Fonte: Folha de São Paulo