O que um Juiz pode ensinar a um Pastor

23 de junho de 2015 Artigos, Espiritualidade 6 Comments
por William Douglas e Fabrini Viguier

Juízes são vistos pela sociedade como detentores de grande poder e autoridade, e, de fato, detêm em suas mãos grande parcela do poder estatal e de influência na vida das pessoas. Além de lidar constantemente com o exercício do poder, com leis e sua aplicação e liderando equipes (as varas e seus cartórios). Os pastores, de igual modo. Portanto, vamos tratar daquilo que um pastor pode extrair de lições para o seu ministério a partir da observação dos desafios, erros e acertos comuns na carreira da magistratura.

Pastores e juízes, enquanto desempenham com primor suas vocações, exercem um papel social de grande importância. Pelo protagonismo que suas posições proporcionam acabam dando direcionamento à vida daqueles que se encontram sob suas responsabilidades. Os primeiros, por escolha de quem os têm nessa condição, de pastoreio; os segundos, por força de lei, decidindo processos judiciais e administrando o Poder Judiciário. Contudo, mesmo atuando em searas diferentes, ambos devem servir ao público visando sempre o bem estar coletivo, sem desconsiderar a importância de cada indivíduo. Tanto pastores quanto juízes devem respeitar a dignidade da pessoa humana, e de seus respectivos ofícios. Ao fazer bem o seu trabalho, estarão respeitando e realçando também sua própria dignidade.

Os juízes e pastores trabalham sob o domínio das leis a que se submetem, procurando sempre honrá-las nas mais distintas esferas da vida humana. Pastores e juízes se submetem aos seus respectivos cânones, sejam estes de origem humana, ou divina. Leis humanas que sejam atemporais e universalmente justas sempre refletirão o caráter d’Aquele de quem emanam as leis divinas. Quando pastores se submetem às legítimas leis dos homens, demonstram o quanto honram a Deus. E juízes, quando pautam suas vidas e decisões pelas leis justas dos homens, demonstram o tipo de caráter idealizado pelo Criador.

Levar as soluções do pastor para o juiz funcionará sempre que o magistrado também acreditar na intervenção divina e na missão que todos os cristãos têm no mundo, em especial em suas atividades profissionais. O caminho inverso funcionará se o pastor atentar que, em paralelo a tudo o que um juiz – profissional secular – aplica, ele, pastor, tem ainda ao seu dispor o arsenal espiritual.

Ambas as atividades têm uma dimensão humana e os pastores lidam mais proximamente com a dimensão espiritual. Por isso, queremos trazer para os pastores aquilo que a experiência de um juiz pode contribuir na gestão cotidiana dos desafios pastorais. Ao analisar o milenar ofício da magistratura podemos extrair lições para auxiliar o labor pastoral naquilo que ele tem de identidade com o trabalho secular.

ERROS QUE OS JUÍZES COMETEM

Todos sabem o quão difícil é o processo seletivo para alguém se tornar um juiz. Os candidatos à magistratura se dedicam a um pesado processo de cursos, estudos e provas tendo em vista sua aprovação. O Brasil precisa urgentemente de pastores que atravessem um processo seletivo muito mais rigoroso, exigente. E se esse processo é, por quaisquer razões, menos rigoroso, a liderança das denominações e grupos religiosos deve zelar para que a qualificação seja uma exigência constante. Isso, claro, além do próprio pastor (e juiz) cuidarem de sua bagagem técnica e doutrinária.

“Juizite”. É o nome que, de forma jocosa, os operadores jurídicos dão ao comportamento de alguns juízes: arrogância, vaidade, autonomia exagerada e às vezes até arbitrariedade, demonstrando sérias dificuldades para ouvir e respeitar outras pessoas. Este é o primeiro erro que os juízes podem apresentar. Para entender essa triste patologia, recorde-se da pior visão estereotipada que se tem de alguns juízes: distantes, arrogantes, donos da verdade, prepotentes. Alguns são assim. Do alto de sua posição de autoridade, do seu magnífico castelo, conquistado com esforço e inteligência, ditam ordens de modo arbitrário ou até tirânico, ouvem pouco, se escondem atrás da autoridade, especializam-se em indicar culpados para suas falhas.

Então, fica a pergunta: existe esse tipo de inflamação de ego entre os pastores?  Nas escolas de magistratura, e nas conversas mais íntimas, os juízes mais antigos costumam alertar os novatos sobre os riscos desse comportamento. Juízes com essa marca são detestados por todos, desde os funcionários até advogados e Ministério Público, passando pelas partes que dão o azar de ter que passar pelas suas mãos. Não são bons líderes, não motivam, possuem muito mais dificuldades de conduzir suas equipes e, claro, não encontrarão alguém para os proteger e auxiliar nas horas mais difíceis. Ao contrário, quando existe respeito e admiração, os serventuários ajudam a proteger o juiz. E, acreditem, seja no Judiciário, seja no mercado, é melhor estar cercado de aliados do que de inimigos, ainda mais os secretos.

Da mesma maneira que juízes estão sujeitos às tais “doenças” profissionais pastores também precisam prestar muita atenção aos seus corações enquanto trabalham. Não são raros os casos na história da Igreja em que líderes religiosos tentam se alojar no trono do próprio Deus. Essas pessoas se apropriam indevidamente da glória divina e abusam da autoridade que lhes é outorgada pelos céus. Nesse processo desvirtuado esses pastores se distanciam do rebanho numa postura de soberba espiritual e desenvolvem um melindre que os torna incriticáveis, pessoas auto-canonizadas.

Sempre que questionados, tais pastores fogem para o argumento de autoridade: estão falando em nome de Deus, são seus “ungidos”. Pior é que há muitas pessoas que, por falta de educação básica e/ou espiritual, são muito suscetíveis a tais argumentos. Pastores que usam sua autoridade para serem autoritários acabam seguidos por um séquito de discípulos bajuladores, e não por bons e sinceros amigos. A fragilidade de um ministério assim se torna evidente em momentos de crise, quando esse líder se vê acuado e desencorajado. Desprovido de uma equipe forte acaba rodeado por adultos infantilizados, de pouco préstimo. Pois nas horas mais amedrontadoras o líder precisa ouvir conselhos, não elogios.

Quanto maior o nível hierárquico de um pastor dentro da sua organização, maior é o risco de cair nesse erro. Sempre existem pessoas que não questionam, outras que de fato acreditam que o pastor está absolutamente certo sempre, outras ainda não estão dispostas a arriscar seus cargos e prestígio questionando o líder. Então, pode ser que os melhores assessores comecem a se afastar e o líder tenha ao seu redor apenas os mais fracos ou mais interesseiros.

Encastelamento. A “juizite” produz uma forma de encastelamento do magistrado, mas mesmo juízes sem esta anomalia podem apresentar uma certa dificuldade de confraternização e compartilhamento de impressões. O isolamento do cargo é comum. Porém, há juízes e pastores que vão se tornando cada vez mais distantes, adotando comportamento de CEOs de grandes corporações ou de estrelas de Hollywood.

Sabe-se que para um pastor é mais comum falar do que ouvir. Pela natureza de seu ofício o ministro é procurado para dar conselhos, fazer orações, emitir sua opinião sobre assuntos polêmicos. Tudo isto, além de suas atuações como professor e pregador, onde já assume naturalmente uma posição de proeminência. Sem que perceba ele pode vir a acreditar que não precisa ouvir conselhos, ser instruído, aprender com a sabedoria de quem está por perto. Pode ser que não tenha a quem prestar contas ou reverência, correndo o risco de ficar sem qualquer tipo de disciplina ou sem pessoas que possam ajudá-lo a criar balizas e limites. Afinal, todo poder ilimitado é, nas mãos de seres humanos (por melhor que sejam) algo muito perigoso.

Uma das mais graves consequências desse comportamento é a perda do espírito de aluno, uma postura altamente recomendável. Para manter-se longe do perigo do encastelamento e da arrogância que esse mal pode causar, o pastor pode, por exemplo, se dedicar ao ministério de ensino em sua igreja. Sendo professor, ele se manterá sempre aluno. Isso, porque os alunos costumam fazer perguntas sobre aspectos doutrinários, históricos e linguísticos que o pastor, por si mesmo, jamais consideraria. Como resultado, ele precisará fazer pesquisas, voltar aos livros, reler as Escrituras, ou seja, sentar-se outra vez na cadeira do aluno.

Há pastores que se encastelam por vaidade, outros costumam se encastelar por insegurança. Temem a vulnerabilidade de ter de assumir que não sabem o que fazer em determinadas ocasiões, ou de dizer “não sei como responder a isso”. Acreditam equivocadamente que perderão sua autoridade se confessarem desconhecer algum assunto, como se ter essa sabedoria completa fosse algo razoável de se esperar. E como defesa, se colocam no alto da torre.

Perda de foco e sentido. Existem juízes que usam sua inteligência e conhecimento para dizer “não” para as partes, até porque dizer “não” é sempre mais fácil. Enfrentam a montanha de processos extinguindo-os por motivos banais, deixando de prestar verdadeira jurisdição. Outros tomam suas decisões não baseados no melhor Direito, mas sempre mirando promoções e bons relacionamentos.

São juízes que não estão pensando na sua missão de fazer justiça, menos ainda nas implicações éticas e morais desses comportamentos. Preguiçosos, carreiristas, parciais, é como nominamos tais colegas. Repare que é uma forma de corrupção não pelo dinheiro, mas pela comodidade ou prestígio. E, nos perdoem, mas já vimos inúmeros pastores que estão interessados apenas em bônus imediatos, em participações, em resultados e convites para ir para uma igreja ou missão maior, com um pacote de benefícios mais atraente. Deixam de enfrentar pecados ou problemas para não se “queimarem” com a membresia da igreja ou a alta direção da denominação.

Quando se fala em pastores, é fácil sentir a alegria, o entusiasmo e o frescor de uma pessoa disposta a servir ao Mestre assim que inicia seu ministério. Porém, em alguns casos nota-se que algumas dessas pessoas, ao longo da jornada, vão sendo modificadas para pior. Seus ministérios se tornam um meio para servirem a si mesmos e Jesus Cristo passa a funcionar com um tipo de avalista, cuja função é dar um brilho a mais aos seus empreendimentos.

Um pastor pode servir a Cristo em diversas circunstâncias como, por exemplo, liderando uma igreja, ensinando num seminário, cuidando de instituições de caridade, escrevendo livros e artigos, entre outros. Inadmissível é permitir que essas funções sejam fins em si mesmas. Quando um pastor faz de seu ministério o objetivo maior de sua vida ele deixa de servir a Cristo para trabalhar para ele próprio. Ele pode fazer a coisa certa, mas pelo motivo errado. Pode, por exemplo, cuidar dos pobres, tentando sempre capitalizar sua própria reputação. Assim, pastores desatentos vão perdendo o foco, Jesus Cristo, e o senso de missão, que é glorificar o Seu nome.

Medo. Uma das principais tarefas de um líder é tomar decisões, e isso nada mais é do que fazer escolhas. Escolhas representam rejeições e isso tem desdobramentos. Todos concordam que um pastor que tem medo de tomar decisões serve para pouca coisa. Pior, pode ser um pastor que vai aos poucos se tornando hábil em fugir de problemas, ou de qualquer coisa que possa atrapalhar sua posição e prestígio. Então, ao chegar nesse nível, ele não serve mais aos interesses do Evangelho, mas apenas a si próprio. Servir a Deus envolve, não poucas vezes, desagradar a muitos.

Quando se lê o Evangelho se encontra um Cristo decidido, que fez escolhas difíceis em seu ministério, sendo a crucificação a mais desafiadora de todas. Um líder irá experimentar com grande regularidade a pressão de ter de dar a última palavra em muitos assuntos. Ele não poderá terceirizar suas decisões sem que perca sua autoridade e a admiração de seus liderados. Pode ouvir conselhos, recolher opiniões do grupo, mas em algum momento o líder precisa tomar decisões. E toda decisão envolve riscos. Liderar é conviver com o medo, mas não permitir que se ceda a ele.

O tipo de pastor que teme tomar decisões, deve estar ciente de que, em algum momento, ficará claro para todos à sua volta que sua autoproclamada prudência, nada mais é que pura covardia.

Nepotismo. Autoridades, de um modo geral, têm o risco de praticar nepotismo, ou seja, de nomear parentes para cargos comissionados. O risco é tão grave que a lei vem criando proibições contra essa prática. Afinal, os cargos em comissão não pertencem à autoridade que está no poder, mas ao Estado. Igualmente, há pastores que tendem a querer que seus filhos os sucedam.

O problema é o mesmo: a igreja não é do pastor, mas de Cristo. O pastor, para chegar até onde chegou, trilhou uma longa estrada de evolução. Ao colocar um filho em seu lugar, sem que este tenha a mesma experiência, não só colocam seu eleito em posição perigosa como põe em risco a perpetuação e crescimento da igreja. Nem sempre os filhos possuem as mesmas habilidades que os pais, e, se as têm, deveriam prova-la de forma isenta. Nesse passo, não são poucas as empresas privadas e até familiares que cuidam para evitar essa prática, pelos riscos que ela traz para a organização. Se quem cuida de uma empresa comercial tem essa cautela, não seria demais esperar algo semelhante de quem cuida das coisas do Reino.

 VIRTUDES E DEVERES DOS JUÍZES E PASTORES

Juízes desenvolvem um apurado discernimento ao longo da carreira. Imersos numa rotina de mediação e julgamento de conflitos, precisam sempre encontrar soluções corretas e justas. No caso dos pastores, por muitas vezes postos como árbitros de disputas entre pessoas afetivamente próximas a ele, seria interessante poder valer-se do recurso dos magistrados quando se declararam impedidos ou suspeitos em alguns processos. Pois é dever do juiz declarar-se impedido ou suspeito, podendo alegar motivos de foro íntimo sempre que entender que sua imparcialidade possa ser prejudicada.

O Código de Processo Civil diz que o magistrado está proibido de exercer suas funções em processos de que for parte ou neles tenha atuado como advogado. O juiz será considerado suspeito por sua parcialidade quando for amigo íntimo ou inimigo capital de qualquer das partes, receber presente antes ou depois de iniciado o processo, aconselhar alguma das partes sobre a causa, entre outros.

Para um pastor envolvido com o rebanho declarar-se impedido ou suspeito em situações de conflito entre pessoas da comunidade é quase impossível. Tal atitude poderia ser considerada como uma grave omissão. O líder precisa manter a igreja em ordem (Tito 1.5), julgando as pendengas existentes com equidade e imparcialidade. Contudo, o discernimento do pastor pode ficar comprometido por questões interferentes como: laços de família, dinheiro, política religiosa, amizade, entre outros.

Nesse cenário uma das partes pode não ser ouvida com a devida atenção e objetividade, e ainda, ver seu direito à defesa diminuído. Dessa forma, alguém pode acabar sendo vitimado por uma disciplina injusta, ou ver sua demanda tratada sem a necessária gravidade.

Pastores sábios têm procurado se livrar dos danos causados pela parcialidade, ou pelo menos diminuir sua interferência, assumindo previamente em suas mentes e corações que não ficarão ao lado de “A” ou de “B” num conflito. Mas sim, ao lado da verdade. Essa é uma decisão que exige muita coragem do pastor, sobretudo quando o conflito envolve pessoas de seu convívio.

Pastores podem aprender muito com livros, cursos e seus próprios erros. Das dores que sofrem por conta de seus desacertos precisam assimilar uma sagrada lição: Diante de momentos críticos não devem agir por reflexo, mas por reflexão. Ter pressa em ocasiões de importância crítica é tão perigoso quanto uma criança que corre com uma faca na mão.

Anos atrás, a esposa de um candidato ao ministério procurou o articulista e pastor Fabrini Viguier reclamando do comportamento de seu marido, dizendo que gostaria que ele “fosse como o senhor, pastor”. Isso massageia o ego, mas também tem um grande potencial maléfico para a alma, inflando a vaidade de quem ouve algo assim e não se policia. Ele lembra-se de ter dito a ela que o marido (e ela) não devia fitar os olhos no pastor mas sim se concentrar no que Paulo havia escrito em sua carta a Timóteo a respeito do caráter de quem deseja se tornar pastor (1Timóteo 3.1-7).

Nesse trecho da epístola estão elencadas as qualidades que os aspirantes ao pastorado devem apresentar, antes de se tornarem ministros. Um grave erro vem sendo cometido por algumas igrejas brasileiras, que vão dando empoderamento pastoral aos seus candidatos, permitindo-lhes comprovar as necessárias virtudes morais, depois de ordenados. As consequências desse sério erro têm sido vistas nos quatro pontos cardeais de nosso querido país.

A essa altura, precisamos deixar muito claro a diferença que há entre moralidade e moralismo. Moralidade é a conduta, o comportamento sobre o qual uma pessoa estrutura seu caráter. Agindo assim, dentro da moralidade, o indivíduo demonstra um caráter semelhante ao de Deus, e ainda o glorifica. Para este, a moral é apenas um meio. A pessoa moralista, porém, elege a moral como seu valor supremo, acima do próprio Deus. Ela usa a moral como princípio, meio e fim de todas as coisas. A pessoa que o moralista gosta de glorificar é ela mesma.

 Juízes e pastores precisam saber

Há muitos cuidados que não são, em geral, aprendidos nas escolas teológicas ou nos cursos de Direito, nas escolas de magistratura, mas sim, através da vivência profissional, e por vezes de forma dolorosa.

Ressentimentos, inveja e adulação

Fabrini Viguier relata que, no início da vocação pastoral, quando tudo era muito difícil, contava com a simpatia integral de seus parceiros de ministério. Havia uma solidariedade e um forte sentimento de compaixão pelo pastor iniciante. Havia um espaço muito confortável e bom para ele poder desabafar com seus colegas mais antigos, que sempre o apoiavam com genuíno amor.

Porém, conforme Deus seguia honrando o ministério (por Sua pura e inexplicável graça) alguns colegas não mais o felicitavam com a mesma intensidade com que o confortavam no passado. Mais alguns anos e um pouco mais de progresso foram suficientes para que alguns desses antigos parceiros começassem a criticar.

A inveja tem o poder de corroer laços fortes, de fragilizar grandes amizades. E mesmo que não queiramos aceitar, quanto mais a pessoa progride, mais inveja tende a despertar. Afinal, ninguém sente inveja de quem está numa situação pior que a sua própria.

A melhor forma de um juiz se proteger da inveja é manter a vida ilibada e evitar ostentação. Outros dois antídotos para evitar ou diminuir a inveja são a humildade e a capacidade de elogiar e respeitar os demais colegas. Isso funciona na magistratura, e pode funcionar no ministério pastoral.

“Assombração sabe para quem aparece”

Vez ou outra o Juiz é chamado para mediar alguma situação de tensão entre advogados ou entre estes e serventuários. Porém, quando chega no local aqueles contendores, antes agitados e exaltados, tendem a se acalmar e a não repetir o comportamento inadequado que fez o magistrado ser chamado em primeiro lugar. Do mesmo modo, não é muito raro, pastores tomarem conhecimento de que, tão logo tenham saído de um determinado evento da igreja, algumas pessoas mudaram seus modos. Se comportaram de forma inapropriada. Isso tende a deixar os pastores incomodados, pois não gostam de ver seus irmãos adultos agindo de maneira tão imatura (necessitando de um “inspetor”).

Também causava perplexidade em muitos líderes o fato de terem visto algumas pessoas de espírito crítico fazendo ácidas reclamações concernentes a eles, enquanto as mesmas os tratavam com docilidade e simpatia. Em suma, na presença do líder, há simpatia e aos primeiros sinais de sua ausência, críticas ácidas. Esse tipo de falsidade é muito desagradável e difícil de lidar. O bom amigo, ou liderado – seja no serviço público ou na igreja – é aquele que nos critica em particular e nos elogia em público. Porém, não são poucos aqueles que adotam comportamento diametralmente oposto.

É fato que a presença dos juízes e pastores inibe uma série de posturas impróprias. Isso é bom e ruim. Bom, porque demonstra que o líder tem respeitabilidade. Ruim, porque pode levar o líder à falsa impressão de que está tudo bem.

Para que a organização, laica ou religiosa, tenha um ambiente seguro e pacificado é fundamental que os líderes se cerquem de pessoas da melhor qualidade moral e emocional que for possível. Ele deve lembrar que não é onipresente e que por isso precisa de pessoas que o ajudem no exercício da liderança. Essas pessoas, escolhidas criteriosamente, precisam de alguma medida de empoderamento para que, em caso de necessidade, possam cuidar dos problemas gerados por aqueles que não prezam pelos mesmos valores. No caso dos juízes, precisam ser pessoas que honrem o exercício do cargo público; no caso dos pastores, irmãos e irmãs tementes a Deus e que zelem pela unidade do corpo de Cristo.

A curva de Laffer

Nas disciplinas de Direito Financeiro e Tributário, aprende-se sobre a “curva de Laffer”, gráfico que demonstra que para aumentar a receita tributária basta simplesmente ir aumentando as alíquotas ou quantidade de tributos. A arrecadação só é progressiva até um determinado nível. Quando há abuso, quando há excesso de tributação, a receita começa a se mostrar regressiva, seja por sonegação, seja por redução das atividades econômicas que compõem a base de arrecadação. No livro As 25 Leis Bíblicas do Sucesso, um estudo laico sobre a sabedoria milenar da Bíblia, foi sustentado que a “curva de Laffer” tem aplicação em todas as áreas. Quando alguém começa a abusar dos sócios, parceiros, clientes, fornecedores, patrões ou empregados, o “ganho” obtido subirá até determinado ponto e depois começará a decair. E descerá a níveis inferiores aos que ocorreriam se esse alguém agisse de forma correta e leal. A forma da perda pode ser a ruptura dos negócios, a diminuição das encomendas, a falta de companheirismo e/ou motivação.

Essa talvez seja a velha fórmula que anuncia que “o negócio é bom quando é bom para os dois lados”. Sempre que uma relação se torna “muito boa” para um, pode se tornar onerosa ou opressiva para o outro, com danos para a credibilidade do parceiro e para sua perpetuação. Exploração tem limite e é um processo autofágico. Isso vale para clientes internos e externos.

Assim, quando o pastor ou líder tem uma vida que destoa daquilo que prega, ou de forma muito profunda daquela que seus liderados vivem, pode haver a sensação de que existe algum tipo de exploração. Do mesmo modo, pode haver insatisfação e frustração quando o sistema de trabalho ou de remuneração é desigual entre os prediletos dos líderes. Quando existe um abismo muito grande entre o líder principal e seus auxiliares imediatos, ou entre estes e os membros da igreja, mais uma vez se verificará o risco de as pessoas terem uma percepção de injustiça.

Um fato verificado em dois mil anos de história da Igreja é que os cristãos gostam de desafios. Já no “berço” a igreja enfrentou o desafio de encarar os judeus que não aceitavam a obra de Jesus Cristo. Depois vieram os desafios impostos pelo Império Romano e inúmeros outros no decorrer dos séculos. Quando o povo de Deus percebe que uma causa divina está em jogo, todos arregaçam as mangas e põem-se a enfrentar os “gigantes”.

Contudo, o que a Igreja não aceita é ser explorada por líderes de motivações espúrias. Pastores precisam sondar seus corações para verem se seus projetos são legítimos, advogáveis do ponto de vista do bom senso. Pode ser que, sem que percebam, pastores atravessem a tênue linha que separa o sacrifício legítimo da exploração infame. O resultado ele verá inexoravelmente na prática, pois, mediante abusos, tendem a cair a arrecadação e o envolvimento das pessoas.

Sempre existe uma responsabilidade

Pastores levam muito tempo para compreender e aceitar o fato de que são pessoas públicas. A resistência pode se dar por acharem que apenas gente famosa é digna desse status. E ser uma pessoa pública é algo que exige grande dose de maturidade, pois seus atos e palavras têm repercussões muito acima da média.

Um pastor deve estar ciente de que seu caminho é ainda mais estreito que aquele percorrido pelos irmãos e irmãs que ele pastoreia. Isso significará que seus limites deverão ser mais austeros e que suas palavras deverão ser muito bem escolhidas. Dependendo do grau de emoção no tom de voz do pastor, o rebanho pode, por exemplo, experimentar muito ansiedade, ou respirar aliviado. Por mais que os pastores façam o nobre trabalho de rejeitarem a beatificação de suas pessoas, os membros das igrejas tendem a nutrir elevadíssima estima por seus líderes.

Ser responsável é responder por algo, por alguém. Um pastor é duplamente responsável pela igreja. Ele responde por ela diante de Deus, e responde por ela diante da sociedade.

Saúde e qualidade de vida

É comum os juízes não cuidarem bem se sua saúde, talvez com uma percepção inconsciente e obviamente falsa de que uma “liminar” ou “sentença” poderá evitar um infarto. Sim, é comum que juízes não cuidem da saúde e também da vida em família. Aliás, o exercício da autoridade no plano profissional tem feito muitos magistrados terem sérios problemas em suas relações familiares. Os pastores também costumam ter tais problemas, como se acreditassem que por exercer uma missão divina terão algum tipo de superproteção contra doenças, estresse ou, mais, que sua família poderá conviver com menos atenção do que a que ele mesmo, pastor, recomenda que os membros da igreja deem dentro de suas casas.

O ministério pastoral exerce uma forte pressão sobre o ministro, levando-o facilmente ao estresse e, em muitos casos, ao colapso nervoso. Pastores aceitam tardiamente a verdade de que sem saúde não realizarão a obra que tanto amam. Os pastores precisam aprender a monitorar sua saúde física e emocional. Devem se lembrar das coisas que ensinam em seus aconselhamentos, como por exemplo, que doenças físicas podem se originar na alma, enquanto que enfermidades emocionais podem vir de corpos maltratados.

Uma vez que estejam cientes de sua própria importância os pastores precisam cuidar da saúde física e emocional do cônjuge e dos filhos. É preciso que haja “filtros” entre a igreja e a família dos pastores, que visem proteger a privacidade daqueles que ficam tão expostos aos ataques das trevas e às pressões ministeriais. Temos visto, numa quantidade muito acima do tolerável, o quanto uma igreja perde quando vê a vida de seu querido pastor empobrecida, sem qualidade de nenhuma natureza.

Não espere a doença chegar para sentir coragem de dizer à igreja que você precisa fazer exercícios físicos, tirar férias, ter lazer com a família e amigos de sua intimidade. Pastores precisam entender que existe uma diferença significativa entre tirar uma folga e descansar. Nesta singela diferenciação existe sabedoria e encorajamento suficientes para o pastor exercer um ministério próspero, saudável e cheio de contentamento.

 Conclusão

Juízes e pastores atuam em áreas diferentes da sociedade, mas em comum têm o material com o qual trabalham: o ser humano. Ambos se associam na tarefa de fazer desse mundo um lugar bom, seguro, justo, apto para o progresso e grandes realizações. Na Teologia Reformada, os magistrados são tidos em alta estima, considerados como “o braço de Deus” na sociedade. Isso, porque militam a favor de tudo que é honesto, justo e bom. Assim, pastores e juízes devem ser complementares, como pessoas que somam suas vocações enriquecendo a vida das pessoas que passam por seus caminhos. Os juízes podem aprender muito com os pastores, e os pastores com os juízes. Cientes de que exercem autoridade em nome de outrem, de Deus ou do Estado, certamente a troca de experiências e aprendizados conduzirá uns e outros a um desempenho melhor de suas nobres e divinas missões.


William Douglas é juiz federal (RJ), professor universitário e escritor, autor do livro As 25 Leis Bíblicas do Sucesso, Ed. Sextante.

Fabrini Viguier é pastor da Igreja Plena de Icaraí, Niterói (RJ), palestrante, diretor do Centro de Treinamento para Plantadores de Igreja (CTPI) e autor do livro Ser Homem, Ed. Thomas Nelson Brasil