O Guto

por William Douglas

É muito comum ver nos clubes, bairros, escolas, grupos de pessoas onde aparecem três classe: os famosos, os neutros e os mal afamados. Para ser famoso basta uma boa qualidade: habilidade nos esportes, riqueza, beleza, inteligência (desde que não seja um nerd), uma boa compleição física, força ou, então, bons relacionamentos (filho de, amigo de, protegido de e até namorando fulano ou sicrana). Do outro lado, os exageradamente feios, pobres, limitados ou, às vezes, basta o azar de um ou outro acontecimento ruim e rumoroso (como uma surra, vexame ou coisa que valha). Ser “chato” também é motivo para estar na mira de qualquer grupo.

Para ser chato é preciso algum bom motivo: pessoas muito estudiosas e sem simpatia são hipótese corrente, monotemáticos idem. Por fim, vale lembrar um dos melhores conceitos do que é um “chato”: chato é aquela pessoa que te mais interesse em você do que você nele.

Um fato positivo também pode guindar alguém ao estrelato, mas para as coisas boas a memória humana é muito falha, de um modo que depois de algum tempo será preciso “atualizar” algum motivo para estar no hall da fama.

Aqueles que não tem a sorte de estar no primeiro grupo nem o azar de estar no último são os neutros. Dividem-se em normais, apagados e sumidos. Talvez o melhor dos mundo seja o dos normais. Aqueles que têm a vida mais tranquila, livres das responsabilidades dos eleitos pela fama e das discriminações e perseguições aos mal afamados.

É claro que as tais classes não são estanques, permitindo movimentação conforme a vida vai andando. Depois da adolescência é até gozado ir vendo aonde uns e outros foram parar.

Pois bem, os grupos da extremidade andam mais ou menos juntos, os famosos por uma questão de elitização e os mal afamados por falta de opção. Claro que todos possuem seus grupos menores, de pessoas com as quais há maior amizade e, necessariamente, mais compreensão e solidariedade mútuas.

Os filmes americanos sobre adolescentes, colégios, etc., mostram razoavelmente estas divisões, embora as colocando de forma u pouco estereotipada, além de trazerem tais filmes sequelas do american way of life, que é consideravelmente frívolo, como se vê, por exemplo, com a noção de winners e losers, como se vencedores e perdedores fossem pessoas e não situações.

Guto era um cara que, quando eu tinha lá uns oito anos, devia ter uns 15 ou 16 e estava na lista dos caras respeitados. Tinha namorada, jogava bem futebol e o pessoal da vizinhança o tinha como um daqueles cuja a opinião era ouvida. Eu, para variar, não jogava nada direito, estava na lista dos mais crianças, era muito branco e obviamente estava mal parado. Por esse motivo, era um daqueles que de vez em quando sofria alguma gozação, vitupério ou ameaça dos caras maiores e daqueles que, estando na lista dos respeitados, gostavam de criar-se em cima dos menores e mais fracos.

Contudo, sempre que alguém queria fazer alguma maldade, daquelas pequenas maldades (ou às vezes grandes) que são feitas no dia-a-dia, Guto sempre intervinha impedindo-a. O fato de estar na lista dos com força e fama era, para tanto, indispensável. Certas vezes o vi proteger outros normais ou mal afamados, certas vezes eu mesmo deixei de ser ridicularizado ou receber um tapa ou cascudo por conta da generosa e gratuita intervenção do Guto. Eu admirava sua atitude. Além do mais, proteger ou tomar partido de algum mal afamado ou fraco chega a ser, em geral, atitude quase reprovável entre os bem afamados.

É gozado, mas eu já encontrei o Guto lá umas duas vezes e eu acabei ficando fisicamente bem maior que ele, embora ainda me sinta menor que ele, e continue agradecido.

O fato é que o Guto me influenciou bastante por sua atitude. Eu, pequeno que era, via como era necessário ser forte para estar protegido. Mas que isto, admirava seu jeito de proteger os outros e sentia vontade de um dia ser forte e imitá-lo, protegendo os mais fracos gratuitamente.

Eu sempre quis ser como o Guto, com poder para ser respeitado e para seguir seu exemplo de bondade. Acabei crescendo e descobri que na ponta de minha caneta existe bastante poder: o poder estatal. Assim, quase sem perceber, me vi no lugar que desejei tanto. Qualquer servidor pode agir como o Guto: policiais, fiscais, agentes administrativos, médicos, enfermeiros, todos possuem uma parcela de poder que pode ser usada bem ou mal, de forma positiva ou negativa.

Quando você passar no seu concurso, você terá ficado – de repente – grande e bem afamado, e poderá usar o seu poder da forma mais comum ou da forma mais bonita. Boa sorte, boas escolhas.