O amor serve para quê?

por William Douglas

Amor, Flor Estranha

 

O amor é uma flor estranha, que às vezes nasce nos lugares mais inóspitos, outras, resiste às maiores intempéries, e noutras, ainda, morre logo, dizem, porém nunca de morte natural, e nisso até creio, mas algumas vezes dura tanto que viola qualquer lógica.

Visceralmente bela, não é sequer rara, mas varia tanto de formato que parece até o vinho. Sim, o amor também tem sete mil sabores, sete mil formas, sete mil gostos.

Há aqueles que regam míseras sementes que nunca brotam, outros recebem buquês e jardins graciosamente. Uns morrem logo, outros sobrevivem até à morte do ente amado. “Quem ama cuida”, dizem, mas não é porque se cuida do que se ama (o amor pode ser desleixado), mas porque quando você cuida, acaba amando. O amor é tão vário e tão louco que às vezes ele até se compra, e noutras não pode ser obtido por favor algum. Às vezes brota, outras não; às vezes dura, outras não. Há amores de boa qualidade, nobres, outros tão pobres que não são muito melhores que o descaso. Definitivamente é uma flor estranha, visceralmente bela e de cores as mais variadas. Alguns tentam comprar tais flores como numa feira, outros a cultivam como um bonsai no alto da montanha, uns o perseguem em mil faces e não o encontram, outros recebem amor gratuito que chove sobre suas casas.

Ninguém pode confina-lo, ninguém o põe numa redoma. Nem o tempo tem sobre a flor do amor algum poder: o efeito do tempo às vezes faz murchar, mas noutras faz aflorar e revigora, multiplica, de modo que não há qualquer garantia. Nisto há sabedoria: você precisa aprender a regar e cuidar da planta, não para mantê-la, porque não tem disso garantia, mas por gratidão, porque ela veio. Não é algo que permite olhar à frente, mas apenas para o mesmo dia. Você pode até investir no amor, mas é mais seguro apenas aproveitar o dia. Regue por gratidão, não por egoísmo.

O amor é flor para se ter no jarro da mesa, ou no jardim da janela, para contemplar a vista, sentir o aroma, acariciar as pétalas, tudo com a certeza de que é uma flor bem misteriosa, que no outro dia poderá estar morta ou brotando novos botões graciosamente. Não é como a gratidão, flor também bela, mas que sempre murcha rapidamente, nem como o ódio, uma flor feia, ou a indiferença, a flor inexistente. Não, o amor é uma flor única, mas que brota, vive e até morre de sete mil formas diferentes.

O amor é uma flor que você pode não receber nunca, ou receber das mãos de quem não prefira. Você pode achar que alguém não merece as flores que recebe, ou que você não as aproveita como gostaria, poderia, ou merece. Há apenas uma garantia nesse jardim: você tem o poder de dar as flores, muitas, e das boas. Você tem o poder de cuidar das flores que recebe, mas só fará sentido se o fizer por gratidão e desinteressadamente.

Você vem para esse mundo sem a certeza de recebê-las, as flores, mas pode plantá-las em jarros ou enormes vastidões de terra, produzir em fazendas, distribuí-las em caminhões, pô-las nas escadas e nos muros, deixando tudo em torno mais florido. Pode entregar flores nos pomares e jardins repletos delas, mas sempre guarde algumas para as terras secas, para os lugares desérticos. Sim, é sempre inseguro deixar uma flor no deserto, mas são os desertos que mais precisam delas. Distribua-as sete mil vezes, sete milhões se for possível.

É tudo que você tem de seguro: você pode dar flores, distribuí-las prodigamente, porque se a prodigalidade é loucura, não menos louco seria não amar e distribuir suas flores.

Esse é o grande segredo do jardim:

– regue as flores que recebe e fique feliz por elas;

– produza suas próprias flores e  entregue-as a esmo, sem medo algum. As flores têm vida própria, sete mil vidas, sete mil tipos: você nunca saberá o que acontecerá depois que não forem mais suas;

– coloque algumas flores nos jarros floridos que receber;

– plante algumas flores no deserto. Flores são malucas, e variadas, e atraem abelhas e borboletas. Alguns dizem que atraem até o arco-íris.