O Acolhimento

19 de julho de 2008 Artigos, Poesias 0 Comments
por William Douglas
Niterói 19.7.2008, 5:50h

Este é o caminho da flor, da abelha e
do rio. É para ser lido sem pressa, sem
o que não poderás respirar o outro.

Deita-se a orquídea,
que ao mesmo tempo confia, posto que deitada,
e teme, posto que há séculos treme, e sofre.
Não é só flor, mas também criança, bebê,
/ um pequeno ser tangível e etéreo.
O barro dessa estrada, o pavimento dessa
senda, a trilha única dessa vereda
usa por nome “sensibilidade”.
Se a tiveres, caminha; se não, só respira.
É preciso silêncio, vários: no mundo,
o teu, o da orquídea, para se completar
/ um espaço sereno e calmo,
para que um toque sutil, suave, terno,
faça a orquídea pulsar num leve abrir de
comissionamento,
num abrir-se de aceitação e confiança.
Em seguida, toca-se o bebê
como as aves sobrevoam os prados,
como a brisa as ondas, como a bruma a areia.
Tuas mãos e braços devem tomar
/ por nome a gentileza, e levitar em
movimentos circulares, curtos, longos,
calmos e um pouco mais rápidos, doces,
parabólicos.
Seus dedos, o dorso das unhas,
teu corpo todo e integralmente dedicado,
tudo para tecer um outro degrau de contato.
Ela, a orquídea, deve se permitir, e aceitar,
ser só uma boneca de pano,
solta na cama.
Uma Emília, como a do Sítio do pássaro
amarelo: solta, absorta, leve, lírio,
orquídea, bebê pequeno.
Emília, e como toda Emília,
um emaranhado de força e fragilidade,
de doçura e agitação:
mas te cabe silenciar qualquer
/ sobressalto, para que
hoje a orquídea durma.
Precisarás ter a sabedoria do
/Visconde de Sabugosa,
e a pureza ingênua do Pedrinho,
para que ela se entregue,
e para que, distraindo-se tu, ela não evapore.
Sim, há de haver merecimento:
tu também és orquídea, e
estás a serviço do embelezamento do
universo.
E o universo, aqui e agora, é a alma,
a emoção, a pele, o sentimento.
E para tocar a alma sobrevoarás e
tangenciarás o corpo,
compartilharás a energia
como dois náufragos o
último bocado de alimento,
e, num milagre sutil,
só possível diante do servir e do
/ acolhimento,
o pão será multiplicado,
alimentarás e serás alimentado,
haverá um copo de seiva,
haverá pólen que recolherarás
melineamente, e, melífluo,
como manteiga,
como água corrente de cachoeira
/ saindo a passear por córregos e seixos,
serpentearás até o oceano, quando,
enfim, serás finalmente um ser completo.
Tu e a orquídea de
/ quem jardineiro cuidas.
Mas sempre sem pressa alguma,
sem outro desejo que não seja adocicar
a orquídea, acolher o bebê,
enternecer a alma tão merecedora de amor
/ quanto a tua.
Toda Emília pulsa, toda orquídea vibra,
todo bebê ri, sorri e gargalha, e
tu nada és senão a brisa, a bruma,
o leite, a abelha, o toque:
tu és o sereno que acaricia a folha.

Teu prêmio será a orquídea rara,
o bebê sorrindo, a Emília nua
/ (não a nudez do corpo, pois o corpo
/ facilmente se desnuda).
Teu prêmio será a nudez tranqüila de quem
/ confia, de quem despe da alma o pesado
traje do medo, da culpa, do controle,
e do receio de ser tocado.
Teu prêmio será teu coração terminar na
ponta de teus dedos, e ao final deles
outro coração estar batendo.
Tu, então, estarás pleno, e serás folha,
e quem tocaste, a gota de sereno repousada,
ela, a bruma, tu serás areia,
tu serás o prado onde ela, pássaro,
fará um longo e suave vôo elíptico sobre a brisa.
E respirarás então, outra vez,
jardineiro de um jardim onde não sabes
mais quem é a planta, quem é a terra.