O abraço

por William Douglas

Abraço meu filho, aperto-o não contra, mas a favor do meu corpo, sinto sua estrutura, sua carne, mexo nos seus cabelos e sinto seu cheiro. Invadem-me um amor e uma alegria imensos e me assalta um temor também. Em breve, será bruma. O menino sumirá num átimo e em seu lugar haverá um homem.

O abraço no filho é o meio da noite, que a cada minuto vai virando dia; é o ninho abraçando um ovo cada dia menos ovo e mais pássaro, surpreendendo sempre antes do tempo, se rompendo uns tantinhos quase invisíveis a cada dia.

Cada palavra pronunciada corretamente enseja uma comemoração, mas também um passamento: é o ovo se rompendo em câmera lenta, é o dia anunciando sua inexorável marcha.

É assim que deve ser, nem posso lamentar. As coisas feitas pelo homem se quebram em pedaços menores, as divinas, em coisas maiores. Casa vira escombro, riacho vira rio grande. O menino vai desaparecer em um homem feito, fruto do que já tem em si e do que for vindo da e pela vida. E já não caberá no meu abraço, e terei que dividi-lo com o mundo, amigos, namorada, esposa e netos. Netos!

Deus me dê vida e saúde para abraçar novamente dentro de alguns anos algum menino carne de minha carne. Este aqui vai mudar em breve. É bruma, é neve a caminho do verão, é aquela névoa fina na várzea que vira dia feito. É água no lago se transformando em chuva torrencial.

Aperto-o mais forte na ilusão do pertencimento ou de que um abraço firme e forte o suficiente bastará para atrasar o tempo. Se o tempo cede às supernovas e aos buracos negros, se cede aos campos gravitacionais intergalácticos, por que não parar para o abraço no menino? Acho que para, ou só se atrasa, depois passa.

Seguro-o mais firme sabendo que é bruma, ovo, é um dia novo chegando, é um projeto de chuva.

Quero fazer do instante uma eternidade, e tudo que logro é fazer da eternidade um instante.