Niterói não pode esquecer: não é a chuva que mata

por William Douglas

Escrevo, pois vários niteroienses estão desesperados, sem nada além da roupa do corpo, tendo perdido familiares, casa, tudo. A situação da cidade é de grande calamidade, maior do que a noticiada pela imprensa. É a cidade mais afetada pelas chuvas e com o maior número de mortos e desaparecidos. Existem vários bairros isolados devido ao grande número de deslizamentos etc.

O pior dos deslizamentos foi em Viçoso Jardim/Morro do Bumba, onde fica a Igreja Batista na qual meu cunhado é pastor. Ele e minha irmã estão lá agora, junto com 120 desabrigados que estão na igreja. Ainda há risco de deslizamentos no local. Ontem levei alimentos e outros gêneros. Escrevo como testemunha presencial. As pessoas estão em choque e ainda há muitos desaparecidos.

De um modo geral, a cidade está mobilizada e muitos ajudam a socorrer etc. É preciso socorro emergencial e não foram trazidas equipes de outros Estados; o esquema de apoio está lento e pouco eficiente. A Defesa Civil está trabalhando, mas não percebi uma resposta imediata e mais forte das autoridades.

Há desabrigados espalhados pelas igrejas e escolas da cidade. Dentre conhecidos próximos, tenho duas empregadas minhas que perderam tudo, casa, móveis, roupas. A babá de meu filho chegou a minha casa apenas com a roupa do corpo. Duas funcionárias da Editora onde sou Conselheiro perderam parentes. Há muitos casos de famílias que perderam, mais que casa e bens, um ou até todos os filhos, e pessoas que perderam toda a família. Um deles saiu para socorrer vizinhos e, quando voltou, a própria casa e os filhos tinham sido levados por deslizamentos.

Vale registrar que um estudo da Unicamp, divulgado em novembro de 2009, já alertava sobre esses riscos. Em Niterói, e com antecedência suficiente para que se tomassem providências, as autoridades municipais foram alertadas sobre o problema.

Aqui, há conivência dos políticos com a ocupação desordenada de morros, não se toma providências etc. Seja por interesses escusos ou pura inércia, por desinteresse, incompetência ou desprezo pelos mais pobres e por seus deveres, as autoridades são as grandes responsáveis pela tragédia.

A imprensa noticia o horror, exibe fotos como a de um bombeiro e um pai chorando abraçados ao lado do corpo de um menino morto, mas exibe pouco as fotos dos responsáveis maiores. No Rio de Janeiro e em Niterói, não é a chuva que está matando, mas a incompetência e omissão dos governantes.

A tragédia é bem maior do que a revelada pela imprensa (ainda há muita gente soterrada e o número de vítimas só será realmente conhecido após o fim do trabalho das escavações). É muito angustiante ir ao local, como fui, e ver o desespero e a situação das pessoas. A cidade, apesar de mobilizada, está em choque, e ainda convivendo com a ineficiência das autoridades e com pessoas sem escrúpulos, que estão se aproveitando da situação para cometer crimes etc.

Hoje, no supermercado onde estava providenciando gêneros urgentes, junto com outro cunhado meu, havia pelo menos mais três grupos fazendo o mesmo. Numa igreja, com 170 pessoas abrigadas, são os comerciantes do local que providenciaram alimentos. Um amigo meu, empresário, mobilizou 50 funcionários para ajudar. A Defesa Civil está trabalhando, providenciando colchões, roupas, alimentos etc. Estamos arrecadando dinheiro, alimentos etc, mas não podemos ficar só nisso: essas pessoas precisam de casa, de ajuda e, mais que tudo, precisamos responsabilizar quem permitiu a tragédia. Os bombeiros e outros estão com dedicação enorme, mas sentindo falta de mais pessoal e de equipamentos. Isso também deve ser registrado.

Passado o primeiro momento, as autoridades precisam providenciar apoio para as famílias sob pena de haver mais problemas. Nesse passo, vale a leitura da recomendação de especialista com experiência após o terremoto no Chile. Para o professor de Políticas Públicas, Andrés Chacón, secretário do Instituto Chileno de Estudos Municipais, da Universidade Autônoma do Chile, “as autoridades devem estar atentas a como lidar com os desabrigados ou que perderam familiares”. Em entrevista à BBC Brasil, ele disse que, se não houver “atenção” das autoridades com os sobreviventes do desastre e “planejamento” para o deslocamento destas pessoas, “haverá violência”. “É um círculo vicioso”, disse Chacón. “As pessoas têm perdas pessoais e materiais, estão estressadas por tudo isso, o que já é motivo para provocar tensão. E são levadas para outros locais sem infraestrutura adequada, pouco habitados, sem iluminação necessária e o medo e essa falta de planejamento geram violência. Sem planejamento, há violência”, afirmou.

Não há como ficar bem diante de tanto sofrimento, nem podemos deixar tudo cair no esquecimento, como é da cultura do brasileiro, que sofre, ajuda, mas se esquece. Se os governos federal, estadual e municipal fossem menos omissos e coniventes com o que lhes compete haveria bem menos sofrimento. Se a UFF, cumprindo seu papel, alertou as autoridades e essas se omitiram, estamos diante de crimes que não podem ser esquecidos ou tolerados. É preciso responsabilizar os culpados, até para que novas tragédias como essa sejam evitadas.

Niterói tem um museu lindo, um caminho Niemeyer lindo, mas faltam hospitais, faltam bombeiros, faltam postos de saúde e as pessoas ocupam áreas de risco sob o olhar cínico, interessado ou omisso das autoridades. Quem permitiu isso, embora avisado, é quem está matando famílias e trazendo desgraça em Niterói. Não foi a chuva.


Fontes:
Unicamp alertou sobre os riscos de tragédia no Rio: http://cosmo.uol.com.br/noticia/50578/2010-04-08/unicamp-alertou-sobre-osbr-riscos-de-tragedia-no-rio.html (último acesso em 09/04/2010)
Estudos alertaram a Prefeitura sobre risco no Morro do Bumba:http://noticias.br.msn.com/especial/chuvas/artigo.aspx?cp-documentid=23832847 (último acesso em 09/04/2010)
Especialista alerta para perigo de violência após catástrofe no Rio:http://noticias.br.msn.com/especial/chuvas/artigo.aspx?cp-documentid=23831923 (último acesso em 09/04/2010)