Mutilações

11 de fevereiro de 2009 Artigos, Poesias 0 Comments
por William Douglas

Cada vez que te via era um pequeno corte, uma dorzinha; e uma outra dor boa cada vez que te ouvia a voz rouca que, posso ser estranho sim, mas gosto. Cortes finos, arranhões, feitos por um desejo que se julgava tão distante da concretude que nem cabia pensar. Um desejo firme tanto quanto contido, que espetava a carne, mas, como te via pouco, sarava até eu te rever dentro em muitos meses ou até anos. Passei vinte anos me cortando em pequenos desejos e saudades, sempre contidos pelo bom senso, mas foram vinte anos roçando arame farpado. Eu, um prisioneiro concretado de um campo aparentemente pouco fechado.

Aí, o tempo e o acaso, esses peraltas, fizeram com que começasse a te ver mais amiúde, e a dor foi aumentando. Aumentada a cada contato, a cada conversa, a cada sorriso, a cada gesto teu. E fui ficando ferido de uma doença dessas que dão dentro do coração da gente, dessas que vivem na memória, no desejo, dessas que se escondem na pele.

Pior, fui ficando mais perto, meio aos poucos, meio por acaso, meio por querer. O desejo foi crescendo sempre, como qualquer câncer, e me começou a sangrar a boca, o pensamento, os dedos. Minha atenção, meu tempo, meu querer foram sendo açoitados, premidos, prensados. E o que me cortava o peito, agora, era me perguntar se seria sempre assim, se teria mais vinte anos desses cortes, dessas privações, dessas não concretizações de nada que me lançasse no desejo o bálsamo do momento, ou o azeite terapêutico da reciprocidade.

Tua ausência me cortava, mas tua presença cicatrizava tudo logo em seguida; teus modos recatados me doíam, um ou outro gesto de interesse faziam uma bandagem; meu desejo enfiava facas e agulhas num coração já cambaleante desde cedo, mas alguma coisa em você me medicava sem que sequer pudesses perceber. Você, a um só tempo, era um martírio e uma estudante de Medicina, ou coisa parecida, ou talvez meu desejo é que fosse, ou seja agora, a foice que me acaricia, o ancinho que me beija.

E quando, enfim, te tive em minhas mãos, cresceu a dor do que eu queria e, numa biologia louca, paralelamente eu me curava de dores e mutilações da ausência tua. Nada me mutilava mais que minha ideia do futuro que, dentro dele, em alguns anos, eu pudesse agonizar um passado onde, mais uma vez, por mais uns lustros, tudo que eu tivesse teu era, teria sido, uns encontros casuais, um sorriso, um toque, um beijo no rosto, uma tarde, um almoço, uma visita à casa do outro, um jogo de pôquer, ou sinuca. Tudo plausível, aprazível e doce, mas tudo incompleto na ponta de meus dedos, de meus lábios, de qualquer de minhas extremidades: as físicas e as do pensamento.

Te toquei, enfim, e senti prazer imenso. Precisei ver o que era mais afiado, qual espada era mais lesiva, que dor era menos tolerável, logo eu, com tantos anos escolhendo o bom comportamento. Perdão, um dia acabei trocando de algemas, de guilhotina. Então, a cada toque leve em tua carne eu tomava lanças e baionetadas na minha carne, nos desejos secretos que de secretos acho que não tinham nada: só eram desejos distantes sobre teu corpo incandescido. E ter que me conter, e ter que me comportar, e eu não era forte para escolher qualquer das duas estradas na bifurcação da hora: sumir dali e ser um santo, e sofrer calado; ou te comer, usar, passar a rodo, e ser errado, desleal, mais um qualquer a sofrer das angústias da clandestinidade e da pecha de amar a clandestinidade. Minhas decisões iam e voltavam como um relógio de corda, um daqueles instrumentos de controlar o tempo dos alunos de piano. Um tic-tac me cortava os pulsos, me suprimia o ar dos pulmões, o sangue nas tubulações. E sem lograr escolher um caminho claro, bati de carro, capotei várias vezes e fui dar edemaciado e escoriado na árvore no canto da rua.

Eram só desejos distantes, mesmo quando se imolavam sobre teu corpo incandescido. Estavas agora sob meu peito, ou sobre ele, e ainda assim distante de podermos nos ter. Contudo, havia bálsamo, azeite, e perfume. E suor, e sorrisos. A dor era nova. E, boa. Troquei de novo de azorragues, de cadafalsos, de esporas. Mas, como disse, livrei todo meu passado, e o meu futuro, e também os teus, de saber de um amor que nunca teria acontecido. O horizonte espaço-temporal desse bem querer finalmente amanheceu, num dia que não sabia o que queria de si mesmo: um dia de sol e azul aberto, ou dia frio, chuvoso e cinza; algumas horas era mar de água fria, noutros mar de água morna. Mas eram apenas detalhes: eu te tinha, e você gostava.

Enfim, tomei-te, e cravei na tua mente minhas confissões, no teu corpo as expressões, cravei-te toda, mas saí eu mesmo metralhado, ferido, como se fugido de um campo minado destes das guerras mundiais.

Sempre serei ferido, sempre serei mutilado, não há um caminho sem dor, ou sem sangue, ou sem algum suplício, sem uma falta qualquer que me consuma. Ou a falta de você, ou a mesma falta de você de um outro jeito. Ou a falta de contar, ou a falta depois de contar; ou a falta de fazer, ou a de querer fazer de novo; ou não saber o que sentias, ou saber e não ter; não há um caminho seguro. Desculpe, mas “amar e ser feliz ao mesmo tempo” é efetivamente complicado, e crer no amor não significa endeusá-lo. Rodrigues era um crédulo apenas mais bem informado.

Todos meus desejos são foices, martelos, relhas de adubar. Todos meus pensamentos são bisturis. As vontades, intensas e diversificadas, querem se realizar sem se mutilarem, mas são tão tolas quanto eu sempre fui a vida inteira e mais um pouco, desde que nasci com esse coração poeta, essa ânsia de respirar fora da atmosfera.

Uma fruta – uma pera, maçã, morango – para ser saboreada, precisa ser ferida, cortada. A melhor romã, ou damasco, ou noz, tem que ser mastigada para dela se tirar o sabor, para fazer doce, para dar gosto, prazer, cometimento, sentido. Uma fruta linda que, de tão bela, não se queira comer não cumpre seu rumo, seu prumo, seu uso natural. E sequer pode ser salva a tal fruta, pois essa sensatez protetora não a impede que apodreça. Frutas foram feitas para serem comidas, sereia.

Cada vez que te como surge um fenômeno estranho: você me mata a fome sem me fazer perder o apetite.

Doutra sorte, a terra foi feita para ser arada; galhos para serem podados; estradas, pisadas; vistas, percebidas; você, para ser tocada. Física e metafisicamente, querida. E, ao irmos e voltarmos nesses desejos, nessas comidas, nessas jornadas, terminamos sempre com um desejo incompleto, por que cada vez que nos tocamos um outro desejo maior nasce no final do toque: terminamos sempre mutilados. E se ousarmos evitar mutilações e macerações dessa ordem, nos mutilamos sem ter a nós mesmos sorvidos reciprocamente ainda que num curto e pouco e pequeno espaço. Aprazível espaço, estreito, onde nos deitamos.

Não tenho qualquer solução boa, nem simples, nem indolor: tudo que escolhermos doerá um pouco, de um jeito ou outro. Eu serei sempre mutilado de algum modo. Só não sei o quanto terei de alívio ou bálsamo no meio desse tormento, doce sim, mas um tormento. Quanto de perfume. Mas ainda prefiro tormento com vida, prazer, acontecimento, do que uma serenidade fria, distante, omissa de si mesmo. Quero, claro, como qualquer pessoa, ação e serenidade, bem dosados, paixão e tranqüilidade. Quero tudo, como qualquer humano, qualquer santo, qualquer pilantra.

Confesso: sou um homem que gosta de tempestades, cinzas, tormentas, chuva. Opto quase sempre pela estrada, ainda que sinuosa, ainda que sob a chuva. Opto por descobrir como é o mundo depois daquela curvazinha ali na frente. E por isso, ando. Canso, me machuco, dou com pedras, buracos, mas também flores, paisagens e, claro, a caminhada, pois ela por si mesmo se completa em gozo. E me chove por dentro sempre que fico nesse espaço entre o desejo realizado e o negado, a dor de não declarar ou de declarar o amor e ele não ter jeito. Talvez eu seja mesmo um astronauta, que navega num espaço sem ar nem gravidade, mas onde vê melhor as estrelas. Uma terra arada, que dá fruto; uma fruta lacerada, mas provada; um beijo faltante, mas depois de um beijo conseguido, dado, concretizado, recebido, correspondido, compartilhado.

Talvez eu acabe tolerando uma mutilação qualquer, como de algum modo mutila qualquer coisa que acontece. Quero até que seja pequena, a menos danosa que for possível ocorrer, mas sei que qualquer caminho tem um custo, qualquer opção sua cota de dor, qualquer amor, qualquer paixão, qualquer refeição, sua cota de faca de cortar, e qualquer corte sua cota de saudade: saudade do que não é mais, do que poderia ser, do que é agora. Cada corte, cada toque, muda o mundo, garota.

Tudo o que preciso é saber-te bem, aconchegada em tuas decisões, tuas escolhas. É saber que estás viva, e bem, e com a dose precisa desse tal contentamento, aquele amigo que nos consola nos dizendo para aproveitar o que se pode da vida, que nem tudo haverá de ser perfeito, mas, como dizem, que pendurado num abismo, segurando-se num arbusto, com jacarés no lago lá embaixo e um urso te rugindo logo acima. Se houver uns morangos no arbusto, suculentos, maduros, tudo isso diz o contentamento: coma os morangos, mastigue-os, sinta sua seiva escorrendo pelas papilas gustativas, deixe seu sumo escorrer para o canto da boca, faça dela travesseirinhos onde deite-se o sabor enquanto escorre. E engula tudo que puder, na velocidade que bem preferir. O contentamento, sim, nos diz para aproveitar um pouco, carpe diem, tempus fugit, mas sem machucar ninguém. Sem ninguém participar dessa dança a dois, e ninguém se ferir senão os dançarinos, que a cada dança querem outra, e não podem ter. Ao menos, nem sempre.

É isso, mutilações. Algumas eu tolero, outras abomino. Abomino a dor que magoa, a que fere sem conceder prazer conjuntamente. Se é pra magoar é melhor nem saber. Eu vou bem com a dor que nos causamos mas que é ministrada com outros prazeres, aquela onde ela, a dor, a mutilação, não é nada senão efeito colateral de um desejo que se consuma. Mas é preciso que o saldo seja positivo, que cada passo de dor experimente um quilômetro de bem-estar, de prazer ou de felicidade, essa moça fugidia. Enfim, só posso me mutilar e incendiar sobre teu corpo, e mente, e só posso sentir prazer em que se derreta sob meu fogo, se puderes tolerar a dor da falta, de tudo o que falta, de tudo que não é, de tudo que poderia ser mas que não está acontecendo no mundo atual, real, esse que é complicado mas é o único que temos, o único onde as coisas acontecem, onde há terra, fruta, sol, chuva, carne. Só temos uma realidade, as outras não aconteceram e se tivessem sido não saberíamos o que seria a vida dentro dessa nova embarcação que não foi lançada. Temos apenas um barco, meu anjo, apenas um barco, nesse mar imenso.

Enfim, saibas, me mutilo sempre em cada circunstância. Não há cenário onde eu não prove alguma dor a respeito de sua vida, e mesmo assim, em qualquer caso, você me dá muito prazer, muita alegria, uns milhares de quilômetros desse bem-estar que gosto, e algumas jardas só dessa dor imensa. Eu te teria mais vezes para me doer de novo a perna, o braço, alguma parte. Eu me daria para você morder quanto quisesse, às vezes. Noutras só poderias me soprar, ou acariciar com doçura. Lamento, é assim, a vida é complicada, embora persista em ser, e seja mesmo, o melhor e mais maravilhoso espetáculo da Terra. Quero te morder, fazer carinhos, rir, ouvir, tomar café, almoço, jantar contigo, ou, se for o caso, se der, se você me der, jantar você até tarde da noite, ouvindo música, para, no final, ninguém saber quem foi que comeu quem.

Mas nada onde você não durma bem depois, nada onde não se acalente e acalme, mesmo quando eu partir, quando estiveres só. Não quero nenhum prazer que te machuque mais do que alegre. Prefiro me mutilar com tua ausência, com um silêncio. Prefiro ser como fui nos outros vinte anos. Um pouco diferente: agora sabemos que nos damos bem, que o toque é leve, que a vida entre nós é boa, mesmo que breve. Quem sabe até haveria uma outra dor pior se não fosse assim? Não sei. Como disse, não quero saber das vidas e mundos que não aconteceram. Vamos falar da nave que singra a realidade: acontecer você em minha vida foi bom, tudo uma delícia, amei cada segundo. E me ufano, acalmo e acalento, quase me masturbo de saber que você gostou também, que te fez bem, que és grata à vida por esses curtos mas dulcíssimos acontecimentos. Somos, aconteceu, foi bom.

E o amanhã?

Não sei, lamento, mas saber o amanhã é uma outra dor, de um outro tipo, que também tem seus prazeres escondidos e expressos. Mas isso já seria outro assunto.