Intolerância religiosa e a Diretoria do Santos

por William Douglas

A visita do time do Santos ao lar espírita Mensageiros da Luz ainda está gerando polêmica. Principais jogadores da equipe – como Robinho, Neymar e Paulo Henrique Ganso – não entraram na casa de caridade e disseram, nesta sexta-feira, que tomaram tal atitude por questões religiosas. Segundo Samir Carvalho, do site Terra, “apesar de os jogadores do Santos estarem sofrendo repreensão por não terem entrado no lar espírita, por outro lado, a direção santista quebrou o manual de conduta do próprio clube, que é entregue aos atletas. A ‘cartilha’ proíbe manifestações religiosas, inclusive, em eventos públicos. ‘Evitar mensagens religiosas em comemorações, entrevistas coletivas e eventos públicos do clube’, diz a cartilha no item manual de condutas. A revelação de que há a proibição de mensagens religiosas na cartilha foi feita pelo próprio presidente do clube, Luis Álvaro de Oliveira Ribeiro. Na ocasião, o tema gerou polêmica: especulou-se no clube que o item teria sido colocado para vetar as pregações do volante Roberto Brum, evangélico declarado no meio do futebol. “

Em entrevista à Rádio Bandeirantes, o Presidente do clube lamentou a atitude de parte dos jogadores do Peixe, que decidiram não entrar no local para participar da doação de ovos de Páscoa, mas entende os atletas. Segundo a notícia (disponível no LancePress), o presidente disse: “- Respeito a decisão de cada um. Não tem nenhuma cláusula no contrato para que eles sejam caridosos. Lamento, mas entendo. Já tive 18 anos e, nessa idade, a gente é radical e fundamentalista nas decisões. Quando vivemos mais, aprendemos a relativizar as coisas. Ajudar ao próximo é obrigação de quem tem coração e alma. Caridade está acima de tudo, porque ajudar ao próximo é também ajudar a Deus. Amor ao próximo não tem nada a ver com religião. Caridade é uma atitude universal. Não tem nada a ver com credo religioso – comentou. “

Contudo, é evidente que os rapazes foram tachados de fundamentalistas e radicais. O Presidente indicou sua opção pela caridade como valor superior. Caridade é algo maravilhoso, claro. Mas ele está impondo sua visão do mundo aos atletas. Ele, o Presidente, não precisa seguir as regras; os atletas são “fundamentalistas”. Não está sendo levado em conta a decisão da direção do Santos de proibir que os jogadores falem em religião usando a camisa do Santos; decisão que a própria diretoria não respeitou, ainda que com meritórias intenções.

Ao meu ver, os atletas deveriam ter participado do evento em tela, mas esta é a minha opinião. Não posso impô-la pela força. Como poderei ser patrulhado também, informo desde já que, embora protestante, participo de uma ONG católica, a Educafro, mantida pelos franciscanos, e faço doações para instituições espíritas. Vim falar da Constituição, e do que ela assegura a todos. Estão tripudiando sobre os jogadores sem se perceber que eles estão sendo vítimas de intolerância.

Hoje, aos 42 anos de idade, participo de eventos de caridade espíritas e católicos, mas, na idade desses rapazes, tinha a cabeça diferente. Precisei evoluir. Mas não se faz alguém evoluir constrangendo, ofendendo ou desrespeitando o direito de a pessoa não querer participar de algo. Isso é um direito, não é um favor. Direito de ir e vir, direito de opinião etc.

Forçar a participação é errado. Ainda mais no caso concreto, onde a diretoria proíbe se falar em religião com a camisa do time. Não sei se é o caso, mas se um atleta não pode se manifestar sobre sua religião, talvez se ache no direito de, com a camisa do time, também não ir a alguma instituição de outra religião. Está errado, mas é uma reação proporcional para quem está sendo constrangido em sua liberdade religiosa.

Aliás, a regra de não se falar em religião é uma visão completamente equivocada do laicismo. A tolerância impõe que respeitemos todas as religiões e não que as eliminemos da vida coletiva. Em geral, o laicismo (equivocado) só serve para calar a religião dos outros, e jamais a de quem pratica essa perversão de um conceito saudável. Além disso, não é qualquer pessoa que quer, gosta ou lida bem com visita a instituições com crianças em situação como a que está em tela. Ninguém é obrigado à caridade ou ir a lugares onde, por alguma razão, não se sinta à vontade. Crianças com paralisia cerebral não têm religião! Isso é o óbvio. Acho que eles poderiam ter ido, seria o ideal. Mas não ir não é crime, nem merece a intolerância que está ocorrendo.

Outro ponto a ser tocado é o sonoro silêncio entre os atletas, ainda mais entre os “fundamentalistas” evangélicos. Parece que não há muita liberdade para decidir, pensar ou crer dentro do time do Santos que, apesar do nome, não está bem dentro da ideia de tolerância e diversidade que deve prevalecer.

Em algumas declarações mais recentes, pareceu estar havendo um equilíbrio maior e que o Presidente do Santos passou a tentar corrigir o problema. Mas o estigma sobre os atletas tem que ser corrigido. Mesmo assim, o site Yahoo noticiou que “para tentar encerrar a polêmica, o Presidente Luis Álvaro de Oliveira Ribeiro contou, em entrevista à TV Gazeta, que tem a intenção de fazer com que alguns destaques do time, como Neymar e Ganso, doem seus uniformes de jogo para a entidade. A ideia é que essas peças sejam leiloadas e revertidas em dinheiro para a instituição”. Ou seja, mesmo quando tenta corrigir o erro, o presidente continua mostrando seu viés autocrático e desrespeito em relação a decisões que, agradem ou não, estão no plano íntimo de cada um dos atletas.

Como disse Ed Renê Kivitz sobre o caso, “os meninos da Vila pisaram na bola. Mas prefiro sair em sua defesa. Eles não erraram sozinhos. Fizeram a cabeça deles.” Eles não são teólogos, e são jovens. Estão mais próximos, se erraram, de ter seguido conceitos de uma sociedade ainda intolerante. E, prossegue Kivitz: “Em síntese, quando você vive no mundo da religião, você fica no ônibus. Quando você vive no mundo da espiritualidade que a sua religião ensina – ou, pelo menos, deveria ensinar –, você desce do ônibus e dá um ovo de páscoa para uma criança que sofre a tragédia e miséria de uma paralisia mental.” Mas, repito, isso é uma decisão individual. Pode ser antipático, mas a Constituição diz que se alguém não quer ir a algum lugar, seja por motivo religioso ou qualquer outro, não é certo obrigar a pessoa a fazê-lo. Não se pode obrigar alguém a ir a lugar algum, seja com crianças, com idosos, seja religioso ou laico.

Ver uma criança com paralisia cerebral é muito triste, tem gente que não lida bem com isso. Eu costumo ir a tais instituições, mas, se alguém não lida bem com isso, se não quer ir, esse fato não a torna alguém ruim.

Vale citar o Professor de Direito Constitucional Belcorígenes de Souza Sampaio Jr.: “Não obstante a meritória disposição da diretoria santista em ajudar uma instituição de caridade, tal desiderato de caridade ou marketing não pode incluir a imposição compulsória aos seus atletas em assuntos de foro íntimo, ou de ‘objeção de consciência’, que prescindem de justificação ou exposição de motivos. Trata-se de Direito Fundamental amparado pela Constituição Federal, que envolve o direito a consciência e religiosa, incluindo o DIREITO de portar-se de acordo com as suas crenças e convicções (tudo dentro da legalidade). Vale salientar, também, que todo sujeito de direitos, dentro de um Estado Constitucional de Direito como o nosso, só pode fazer ou deixar de fazer alguma coisa em virtude de lei. “

O episódio culminou com um linchamento moral dos atletas, como se fossem monstros. Não são. Um deles manteve sua posição; outros disseram que iriam, mas não sei se porque mudaram de opinião (coisa louvável) ou pela pressão que, repito, foi exagerada. Por mais que eles possam ter errado na decisão que tomaram (por imaturidade ou por convicção mesmo), isso não nos dá o direito de errar também, crucificando aqueles garotos por uma conduta talvez até impensada, ou pensada, não se sabe. Não podemos obrigar alguém a fazer algo contrário aos seus ideais, aos seus princípios. É tudo questão de tolerância e consciência. Acho que qualquer tipo de intolerância é danosa. E, à talvez intolerância desses rapazes, o que a sociedade, inclusive intelectuais respeitados, está devolvendo é mais intolerância. O amor, elo comum entre evangélicos e espíritas, se obtém com amor e não à força. Quando se faz alguém decidir pela força, perdemos todos: evangélicos, espíritas e o país de um modo geral.