Faces

11 de julho de 2008 Artigos, Poesias 1 Comment
por William Douglas
Niterói, 11/7/2008, 22h40min.

Deus passa correndo pela sala enquanto digito,
voa, olha para mim, me chama, recuso,
mas Deus não pára, reclama, ri, e corre mais em direção
/ nem sei para onde.

Deus é menina, tem 6 anos, é magrinha,
risonha, temperamental e loura.
Deus sorri para mim, reconheço uma face
/ que já vi antes anos atrás,
/no espelho do banheiro de minha casa
/ que sequer lembro onde.

Deus sorriu, me deu um beijo, pediu uma coisa qualquer
e antes mesmo que eu dissesse sim, saiu.
Em seguida, Deus vem no colo de uma mãe preta,
e me olha com uma face que já vi antes anos atrás,
/ de um espelho qualquer no passado
/de anos que não voltam.

Então Deus se joga sobre meu corpo de braços estendidos,
mas, antes que me olhe, Deus já quer tocar o teclado negro,
alucinado, apressado, tudo que deseja é bater as teclas
/que me viu bater quando chegava,
e, desta vez, Deus é menino, pequeno, nem mesmo um ano,
é louro, também de olhos azuis (como eu e a menina),
é grande, é quieto, é focado,
enquanto a menina é dançarina, atriz e irrequieta.

Deus passa por mim com jeitos diferentes,
como já passou antes na face de minha mãe meiga e
/ ela mesma apenas outra menina, grande, crescida,
/sofrida, antiga, meiga, frágil, forte;
ou no pai rude, duro, distante, igualmente um menino,
que depois dos 60 começou a sorrir e ficou meigo,
e nem vi qual foi o dia em que se transmutou em outra
/face de um mesmo Deus misterioso:
um Deus que me sorriu, Ele mesmo, hoje cedo,
quando antes do amanhecer vim trabalhar,
e me sorriu um sorriso que amanhecia no horizonte,
e este mesmo Deus ainda estava aqui quando retornei da lida,
/da jornada,
e me sorriu um sorriso alaranjado, sobre o mar, ao fim da tarde,
quando foi buscar a noite e as estrelas, onde Ele mesmo
me abraçou com um véu escuro, e quente, e
/ apareceu de novo em uma lua pela metade
/dias depois de vir como lua cheia e amarelada.

Por fim, Deus me chamou para dormir cedo,
e dessa vez tinha forma de mulher, e era igualmente meiga.
Se chamava de Nayara, mas não me enganou:
/ a face angelical não permitiu que eu errasse.
Deus estava de pijama, e bocejava, e queria companhia.
Por fim, atendendo aos divinos pedidos formulados,
/ fui em direção ao quarto,
despi-me, escovei os dentes, olhei minha face antiga,
/ parecida com minha face de menino,
/ parecida com as faces da filha e do filho,
mas sem me enganar: minha face envelhecida,
minha face serena, alimentada, forte, vestida, aquecida,
minha face tratada, grande, crescida,
/sofrida, antiga, meiga, frágil,
minha face que tem recebido o olhar de Deus,
um Deus misterioso que cada dia, cada hora, cada instante,
mesmo quando eu achava que Ele estava silente
/ ou distante,
um Deus que aparecia por todos os cantos.

Antes de dormir, enfim, vi a face de Deus uma outra vez
/ diante de mim,
no espelho iluminado em mais uma hora para ir dormir agora.
Deus passou tantas vezes em minha vida, no meu dia,
Deus andou tanto do meu lado,
Deus apareceu nos pais, nos filhos que vieram,
na esposa que foi achada,
na vida que foi se renovando a cada curva da estrada,
em cada mágoa, em cada vitória, em cada ocaso,
em cada aurora, em cada alegria,
e também nos dramas do dia-a-dia,
que durmo ao lado de uma de suas faces,
e amanhã cedo o verei quando vier aqui trabalhar de novo,
e desejarei ver sua face mais bonita,
no louvor que farei na sua casa, mas ainda quererei ver
a face mais bonita ainda:
irei querer ver Deus na menina correndo e pulando,
e no menino curioso e ensimesmado.
Deus haverá de me sorrir outras vezes, cada dia.