Carta Derradeira de um Jovem Suicida

8 de setembro de 2014 Artigos, Poesias 0 Comments
por William Douglas

Por favor,
não me tenham como covarde
Renato Russo já dizia:
“Para, pára o mundo
que eu quero descer”
Eu só desci…

Não quis mais participar
desta dança de loucos
Não quis mais ver a doçura
e o gosto acre misturados,
nem ver mais
a opulência
ladeada de miséria,
sorrisos cercados de lágrimas

Eu só não quis mais
participar deste jogo
Apenas saí
Estava difícil demais
ficar por aqui,
enfrentar cada dia,
e em cada dia
sua parte de desesperança,
embora houvesse
sua gota de alegria

Sim, é fato, temi a doença,
a fome, a desgraça, a solidão,
temi a partida dos amigos,
temi os hospitais e o crime

Temi, mais que tudo,
a morte dos pais
Mas temi também
o sofrimento
dos filhos que teria
Temi até suas opções
Temi tantas coisas
Talvez eu seja mesmo
um covarde

Já sinto falta
dos dias de sol,
dos dias de chuva,
dos cinzentos
e dos claros
Já sinto falta
das conversas
com os amigos
Já sinto falta
do sorriso da mulher,
que amo e que
não possuo mais,
e sinto falta dos jogos
do meu time favorito

Sinto falta
das crianças
e de sua coragem
Uma coragem
inocente,
pura,
ingênua,
desavisada,
mas uma coragem
sorridente
e indômita
Sinto falta
dos momentos
que ainda possuiria,
dos pais, dos filhos
Sinto falta,
agora eu sinto

Mas é tarde
O sangue já vai
sem que haja retorno
Perdoem-me,
dá licença,
mas, já arrependido,
eu apenas saí.