Bom Bom e Mau Mau

por William Douglas

Quando menino, recordo-me de assistir a um desenho animado infantil chamado de “Bom-Bom e Mau-Mau”. Engraçadérrimo, mas preconceituosérrimo também. O Bom-Bom era o típico anglo-saxão, alto, loiro, atlético e sorridente, bonzinho e cavalheiro toda vida. O Mau-Mau era baixinho, feio, moreno, mais ou menos um Danny DeVito mexicano, e só fazia canalhice. Claro que era um enlatado norte-americano. Mas o conceito continua: existem pessoas boas e pessoas más.

O primeiro problema era que os malvados, baixos, mesquinhos tinham a aparência física mais comum dos latinos. Aliás, a reparar nos filmes de Hollywood, as gangues são normalmente compostas de tipos latinos, orientais ou negros, salvo o chefe, que em geral é caucasiano (afinal, lidera uma “missão” para a raça superior, mesmo que para delinqüir). Não bastasse o erro de impor traços físicos à virtude e à sua falta, o grande equívoco é desenhar pessoas que sejam exemplos de perfeição e, outras, da baixeza humana. Isso é uma grande tolice. Existem pessoas, apenas.

“Ninguém é perfeito” – embora seja uma frase comumente falada, muitas vezes nos esquecemos disso. Seu chefe não é perfeito. Seus colegas de trabalho não são perfeitos. Você não é perfeito! Todos nós temos nossa parcela de virtudes e defeitos. O Bom-Bom e o Mau-Mau estão dentro de nós. Como já foi dito, são dois cachorros que temos dentro de nós e vencerá esta batalha aquele que alimentarmos melhor, aquele que soltarmos da “casinha” e levarmos para a rua, para o desenrolar do cotidiano.

Os extremos são igualmente prejudiciais: a busca frenética pela perfeição e a indiferença aos erros. Quantos executivos, na ânsia de serem perfeitos em tudo, quando erram, culpam-se demasiadamente, caem em depressão ou cultivam uma úlcera! Pessoas que não se permitem errar tornam-se seus próprios carrascos emocionais. Alguns superam a crise e erguem-se mais fortes ainda. Mas o problema é quando, ao invés de se erguer, a pessoa se afunda na sua autocobrança e perde a confiança em si mesma ou no próximo. Por outro lado, pessoas indiferentes aos erros, que não buscam a superação, que trabalham de forma relaxada, ou que jogam a culpa sempre nos “outros” nunca alcançarão sucesso.

O fato de uma pessoa tentar acertar e ficar do lado do bem cotidianamente pode levá-la ao equívoco de que seja o “Bom-Bom” e que aqueles que dela discordam sejam a encarnação do “Mau-Mau”. O receio de ser visto como “Mau-Mau” leva à recusa de qualquer fraqueza, gerando uma imagem falseada, irreal e, pior, um grande peso a ser carregado: o da realização do impossível.

Fernando Pessoa, na voz de Álvaro de Campos, no Poema em Linha Reta, chega a dizer:

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo. (…) Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida… (…) Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?”

Jesus, em outras palavras, referindo-se aos fariseus e aos mestres da lei, que se julgavam modelos de “Bom-Bom”, disse: “Digo-lhes a verdade: os publicanos e as meretrizes entrarão adiante de vós no reino de Deus.” (Mt. 21.31). E o mesmo Cristo disse ter vindo “não para os sãos, mas para os doentes” (Mc 2.17), e chamou para si os “cansados e oprimidos”, e não os fortes e vitoriosos (Mt 11.28).

O leitor que se oprime imaginando-se um “Mau-Mau” tenha um alento, e o que se julga um “Bom-Bom” uma reflexão: somos humanos, apenas, tendo dentro de nós todas as possibilidades – o belo e o feio, a grandeza e a vilania. E, se nos recordarmos disso, seremos mais tolerantes com o comportamento equivocado e falho, e comemoraremos mais a bondade nossa ou no homem ao lado. Faremos da virtude não nosso falso componente, mas nosso desafio, nossa meta.

É de lembrar nossa natureza dúbia, de nossa fragilidade física e moral, que poderemos vigiar diante do espelho o “Mau-Mau”, para que se comporte, e libertar, humilde e grato, nosso lado “Bom-Bom” no correr dos dias.