Avós

8 de janeiro de 2011 Artigos, Poesias 0 Comments
por William Douglas

Hoje à noite tive uma lembrança agradável,
Que jazia perdida no fundo de minhas memórias,
Distante, distante,
Tanto, que não vinha à tona.
Hoje à noite acordei pela madrugada,
E o som da chuva tilintava nas telhas,
Telhas que há tanto não tinha,
Pois há tanto não morava em casa
(e apartamento não tem telhas…).
chovia, copiosamente chovia,
e pude ouvir o som da chuva nas telhas,
pois a chuva tem um som para cada lugar onde bate,
uma para as telhas, uma para o asfalto, uma para a fronte,
outro para o guarda-chuva, outro para o teto do carro,
já que a chuva dá atenção particular a cada qual que a recebe.
Além disso, estava frio,
E o cobertor aquecia de modo especialmente agradável,
Sendo doce sentir o frio ao lado,
E sentir o cobertor a escorá-lo,
E perceber a escuridão,
As sombras, a madrugada.
E, de repente, recordei a casa de meus avós,
No mato, no sítio, ainda no tempo dos lampiões,
E a cama de palha, o cobertor e o frio,
A escuridão e as sombras,
E, mais que tudo, a água da chuva nas telhas,
A acobertar todo este cenário.
Então, de repente, descobri, resgatei, encontrei
Lembranças que jaziam irremediavelmente perdidas na distância,
No tempo, na infância,
Nas profundezas tão fundas da memória,
Tanto que só um capricho as trouxe,
Tanto que só outro capricho as trará de novo,
Pois jazem tão fundo, tão fundo,
Tão irremediavelmente perdidas,
Que apenas por sorte as reencontrarei,
Apenas por acaso as tive por um pouco.
Os avós também jazem perdidos,
Reduzidos  a fotos e a parca memória,
À pronúncia errada do avô cujo filho inventou nome de gringo
Por neto,
Ao doce de leite que a avó fazia,
E que queimou um dia, e eu não comi.
Do céu, talvez, tenha Deus deixado eles verem.
Como a chuva nas telhas avivou a memória,
Permaneci um pouco ali, deitado,
Vendo o escuro e as sombras,
Ouvindo a chuva cantar poemas,
Sentindo o frio perder seu vigor nas cobertas,
Mas dizer que estava ali, acariciando-me a face,
E segurei as bordas do cobertor,
Já sem o pavor dos monstros de então, ou dos insetos,
Mas com medos outros, com fantasmas de adulto,
Já sem o olhar tão inocente, já mais macerado pela vida,
E, desta vez, sem ter os avós no quarto ao lado,
Mas apenas a memória, apenas na memória,
Apenas na falsa e malvada memória,
Cuja bondade vem em ciclos, ondas, momentos,
Como aquele, quando algo irremediavelmente perdido aflorou,
Apenas por conta de chuva, telhas, escuro, frio, madrugada,
Mas desta vez mais só, desta vez mais velho,
Desta vez sem os avós, sem tantas esperanças,
Sem tantos medos tolos, e com mais medos reais,
Aqueles que a infância me escondia,
E que os anos me mostraram,
Ao mesmo tempo em que levava-me as memórias,
Agora, irremediavelmente perdidas, distantes, passadas.
Agora dependentes de uma coincidência,
De um despertar efêmero no meio da madrugada,
Dado que irremediavelmente perdidas jazem, todas elas.
Quantas lembranças outras permanecem assim, à espreita, perdidas?
Quantas estão ali, irremediavelmente perdidas?
Quantos momentos doces já vivi? E ruins?
Vou ficar dependendo de coincidências?
Eu apenas não queria depender tanto da chuva.
Eu apenas não queria depender tanto da chuva, e das telhas.