Ao Leitor

8 de janeiro de 2011 Artigos, Poesias 0 Comments
por William Douglas

Apresento este livro falando da experiência pouca que tive e do que ela me ensinou. Tudo o que está escrito nesta pequena coleção de poemas é fruto de alguns anos de vida. E estes anos já me disseram certas coisas, algumas, escrevi.

 Experiência por emoção: a inexorável perda

 “O que o tempo traz de experiência não vale o que leva de ilusões.” (Gabriel Pomeland)

“Porque na muita sabedoria há muito enfado; e o que aumenta o conhecimento aumenta a tristeza.” (Eclesiastes 1: 18)

 

Desde a adolescência, tenho perdido certas sensações, onde o medo e a curiosidade passam, dando lugar a um conhecimento prévio das coisas. Disto vem decorrendo a perda de inúmeras emoções e uma passividade maior diante da vida. É como se a dúvida nos desse uma atenção maior, uma predisposição para o novo, uma expectativa, ao passo que o saber antecipado desmorona todas as emoções. Diante do que é sabido, resto como se fosse um ancião na varanda, valsando na cadeira de balanço, se movimentando sim, mas dentro de um espaço pré-delimitado.

Aos poucos, com o passar dos anos, fui perdendo a sensação de mergulhar no desconhecido. E pior que o ópio, é pretender apenas e sempre o novo, já que somos, humanamente, limitados: podemos sempre buscar experiências e mundos novos, mas, cada vez mais, andaremos por caminhos já pisados, já cruzados. Viver é perder emoções aos poucos.

Recordo-me da adolescência, quando ainda pensava que as mulheres desgostavam de sexo e, então, para que me beijassem ou se deixassem ser tocadas, teriam de amar, ou ser simpáticas, de modo que fizesse tal esforço. Daí, o medo, a dúvida, uma expectativa louca frente ao mínimo toque e à mais tênue investida. Hoje, embora saiba quantas concessões e presentes concede-se por amor, já sei que elas possuem os mesmos desejos, senão mais ardentes, que nós, homens. E, ao saber que à investida bastará certa dose de paciência, não há mais muita ou mesmo nenhuma ansiedade. As carícias virão e sua certeza estabelece uma terrível tranquilidade. Perdi metade da emoção do sexo.

Na adolescência, tinha uma expectativa enorme sobre a vida, uma ansiedade (hoje, doce ansiedade) do porvir, do nublado, onde as coisas que iriam acontecer restavam numa névoa semifria, que, então, assustava-me. Mas hoje me dão saudade. Melancolia.

O emprego, a esposa, o dia do casamento, os filhos, a cor das paredes da casa, a forma que a face tomaria, tudo isto causava-me espanto, incertezas, parece que o sangue tremia em minhas veias. Punha-me como uma criança, esticando o corpo por detrás do muro, querendo ver o outro lado.

Hoje, após ultrapassar a porteira, o muro, a cerca, parece que o mundo é todo plano, podendo se ver o seu fundo: pequeno, um tanto incerto, mas já desenhado no final do horizonte. Não há mais a doce sensação de se assustar ao abrir a porta, ao descortinar um fluído oblíquo do futuro na fresta entreaberta, no buraco da fechadura e esticar os pés e o pescoço para olhar mais alto. Hoje, até mesmo os lugares do passado ficaram menores, menos assustadores, sem quaisquer mistérios.

Vieram todas aquelas coisas, mas de mansinho, sem fogos, banda, ceia, panetone. Não houve um cataclisma, o mundo não rachou, não pegou fogo, nada. As coisas apenas vieram.

Então, compreendo que a ansiedade ante o desconhecido é mais doce que o conhecimento de tudo, e conheço a terrível tranquilidade do que já não é novo.

Aos poucos, vou perdendo o entusiasmo, e mais: aquele nervosismo a respeito das coisas, a ansiedade ao esperar os próximos lances.

O tempo que falta demora, e cada vez mais o que já passou é mais rápido, e mais lépido que um raio.

Mesmo os brinquedos vão ficando mais seletivos, parecendo que silenciosamente denunciam meu envelhecimento. Algumas montanhas russas já me dão medo enquanto meus sobrinhos são nelas viciados. Eles querem voltar nelas várias vezes, logo naquelas que já me atordoam.

Já não espero as coisas com a mesma angústia, a boa angústia de esperar o próximo dia, um outro encontro, um acontecimento.

Mas, paradoxalmente, a tranquilidade não me tranquiliza, a calma não me acalma.

Tenho mais paciência, mas ela me angustia.

Então, mais uma vez, compreendo.

Então, mais uma vez, compreendo que a ansiedade ante o desconhecido é mais doce que o conhecimento de tudo, que a terrível tranquilidade do que já não é novo.

Não sei aonde quero chegar, ainda. Espero que ainda possa encontrar novos mistérios.

Estes poemas que seguem são registros pálidos desses diversos sentimentos, de mistérios sendo revelados pela vida e ficando claros. E apenas esperam a perplexidade e alegria dos novos dias que ainda estão por vir.