A Tua Nudez me Honraria

7 de janeiro de 2008 Artigos, Poesias 0 Comments
por William Douglas

Hoje vi duas crianças descalças,
    E lembrei de tuas sandálias de imponente couro e brilho,
    E por estarem rotas, as crianças,
    Recordei teus vestidos de cetim,
    Teu cinto, tuas joias,
    Tua balança folheada a ouro,
    Mas nem sempre brandida espada forjada,
    E desejei te ver descalça, seminua.

Tu te vestes com tanta pompa!

Como são belos teus vidros espelhados,
    O piso de tua casa,
    Enquanto as crianças brincam no barro…

E não te respeitam,
    A ponto de te darem casas às vezes mal cheirosas,
    E ficas assim,
    Um pouco honrada, bem trajada e asseada,
    E noutras casas que te botam, ficas assim,
    Meio desleixada, maltratada, abandonada.

Restas sem saber qual é teu brilho, quais são teus trajes.

Mas as crianças não, elas são sempre assim:
    Pobres, descalças, pés no barro, trajes simples,
    (muitas vezes dados pelos pais de outras crianças,
    aqueles atendidos por ti nos palácios acetinados).

No meu país, as crianças quase todas são assim:
    descalças, rotas, sorridentes,
    umas cheias de esperança, outras mais desenganadas.

E me permito imaginar um dia em que te vistas
    sempre de um só mesmo modo,
    domiciliada em casa nobre, mas tosca,
    em casa simples, mas honrada.

O dia quando não te vestirás mais de cetim,
    Nem usarás mais anéis dourados.

É que quando te vejo, hoje, bem trajada,
    Mas lerda e amaldiçoada, incompreendida,
    Embora em trajes certas vezes reluzentes,
    Vejo-te afagada com um brilho destacado,
    Mas ataviada com a sombra dos pés descalços.

Sofro por ti, vilipendiada, violentada, cuspida,
    Tudo por incompreensão e porque te vestes linda,
    Em trajes de cetim, e num palco iluminado.

Ah, minha doce, como gostaria que andasses nua, bem
    Atrevida,
    Mas com um pudor quase sacro,
    Com uma coragem revolucionária.

Os bem vestidos ficariam rubros, os andrajosos lisonjeados.

Eu até posso imaginar teus passos na direção das crianças rotas,
    No dia em que andares toda nua,
    E de pés descalços sobre o barro,
    No dia que compreenderes tua benevolência ímpar,
    E quando todos então não olvidarão mais tua nobreza.

Quando vier este dia, todos te amarão,
    E se ele vier, um dia,
    Assim serias mais linda, e mais honrada.

Mas que andasses sempre nua,
    Sempre exposta, sempre clara,
    Quase vulnerável de tão simples.

Mas sei que todos te respeitariam,
    Que ao ver-te cruzar as ruas
    (pois tu sairias às ruas para ver as flores…),
    todos ficariam quase inertes, estupefatos,
    mas agradados de tua companhia.

Quando passares, nua,
    Todos curvariam suas frontes,
    E respeitar teu pejo,
    E por tal respeito não descobriram tua nudez,
    Nem nada fariam senão deixar-te passar, livre,

 

Alterneira, sincera, nua, rota,
    De pés no chão.

E quando lançasses tua voz,
    Quedariam silentes todos:
    Não por tua riqueza, nem por tuas roupas,
    Nem por tuas sandálias, nem por joias de ouro,
    Nem por tua espada te temeriam,
    Mas apenas por tua singeleza, por tua honra de cara limpa,
    Poe tua pureza, por tua balança medida à luz do dia,
    Por tua nudez a todos revelada,
    E que por respeito corariam as faces, e curvariam os olhos,
    E as crianças poderiam te encontrar embaixo de uma
    Mangueira,
    Onde te sentarias, sempre nua, sempre nua,
    E ninguém te olharia,
    Mas ouviriam tuas sentenças, e calariam,
    E não usarias tua espada,
    Apenas tua balança, honesta e clara como o meio-dia,
    Com teus gestos e veredictos pesados sobre o barro,
    Diante de crianças de mãos vazias.