A Mula

11 de novembro de 2007 Artigos, Qualidade de Vida 0 Comments
por William Douglas

domingo à tarde, Taquaral

Depois de pegar a preá pequena nas mãos, minha filha e meu pai partem para alguma nova aventura. Antes, já tinham circulado pelo Sítio, o avô puxando a égua, sobre ela a “patroinha” e seguindo o cortejo “sharpay”, a potrinha de poucos dias de vida, marrom, com uma estrela branca na testa, como se soubesse de onde veio seu nome. Deito-me.

A luz apagada e o cheiro das coisas me remete à casa do avô, distante trezentos metros no espaço e trinta anos no tempo. O cheiro é o mesmo, exatamente o mesmo. Eu poderia ouvir meu avô andar pela casa, quase me levanto para furtar mais doce de leite da Maria Luiza, mãe de meu pai. Mas “não”, me contento em, já não tão desatento, acender a luz e pegar uma caneta para contar o que vejo, sinto, ouço, nem sei. O único caderno disponível é de 1993, com a assinatura de minha mãe, e de novo viajo no tempo. Escolho uma folha como quem profana o sagrado: o caderno da mãe já morta. No caderno, contudo, ela vive. Fico confuso, mas escrevo.

Minha filha vai na sela como uma princesa, eu sequer tive um cavalo. A egüinha neonata é dela, que negociou há poucas semanas com o avô esse delicado assunto. Dona do “Pepetinha”, a última cria da égua, queria também o novo filhote. Eu, sabido, quis que ela abrisse mão do antigo, ela resistiu mas cedeu, tendo a idéia de dá-lo para o irmão e a dúvida algoz se nesse trato se meteria o avô, afinal. O avô aceita, o “Pepetinha” fica pro Lucas e ela com a cria que viria. Se macho, “Troy”, se fêmea, “Gabriela”. Mas desde então a Sharpay parece ter feito qualquer coisa no High School Musical e tomou a frente. Luísa deu uns pulinhos ao saber que a cria era menina e, pronto, “sharpay” é como se chama. Eu estou no ar condicionado. A menina já está com o repelente de insetos, sim, o progresso passou pelo Sítio. Mas, d´alguma forma, os meus avós rondam pela casa. O ar condicionado só está aqui como prova do tempo que passa, mas posso ver o menino loirinho rodando pelos riachinhos, pescando. E por ele cruza a loirinha, majestática. Num átimo, eu menino e minha filha brincamos perto, quase juntos, transtornando o tempo, a lógica e a cronologia.

Não saio do quarto: temo me reencontrar menino. Ouço minha mãe chamar qualquer coisa e é como se ela e Luísa finalmente se vissem. Não saio do quarto: temo mexer naquilo que não entendo.

Eu já contei antes, no livro: meu avô não sabia pronunciar o nome do neto. Era algo parecido com “Dôguis” o que ele falava para dizer o nome de avião que ao neto deu seu filho sonhador, o menino do engenho, também arteiro, que queria voar, que saiu do meio do mato para ser professor, para estudar na Europa.

Sim, Izequias já velho, 68, aceitou de bom grado (e mesmo adivinhou) a intenção da neta: poupou-lhe no acanhamento e recebeu “Pepetinha” de volta, cedendo-lhe o potro por nascer, na já narrada negociação de poucas semanas atrás. Hoje, então, Luísa veio conhecer sua potrinha, cujo sexo ainda não sabia. Ela disse para o avô, três ou quatro vezes, o nome da égüinha: “Sharpay”. Desde a primeira o avô alertou que era nome difícil… e lá pela quinta eu tive que ralhar com a menina : “Filha, fale direito com seu avô!” Ela tinha se exasperado, reclamando de ele não conseguir falar o nome de seu presente.

Hoje, céu cinzento, o tempo se perverte: o meu avô não sabia falar meu nome, o avô de minha filha não repete o nome da égua. As gerações, os tempos, os acasos, tudo se encontra. Apenas o ar condicionado me prende à lógica do tempo, do progresso e da morte.

A foto digital que tirei de minha tia, Lídia, 73, há pouco, também diz alguma coisa. Ela tem aquela dignidade estranha, singular, quase incompreensível dos homens do campo. Eles têm uma altivez serena, um olhar profundo, uma realeza que não advém de posses ou riquezas materiais (que sequer têm). Essa postura deve vir do campo, de fazer brotar a alface, a couve e a chicória, de ver nascerem os bichos, de interagir à noite com as estrelas, de comer galinha sem hormônio, leite sem acetona, berílio ou tungstênio.

A filha ralha com o avô, e eu intervenho. Ah, se ela soubesse que eu não tive isso! O avô, o meu, já disse antes: éramos de mundos tão diferentes! Ele sequer sabia falar meu nome. Eu tinha medo dos grilos, ele dos sons da cidade, e talvez da luz lancinante dos postes com faróis de mercúrio. De repente, meu pai Doutor na Espanha, o aviador, titular em tudo, não pronuncia direito o nome do cavalo (egüinha) que deu pra neta.

Me assusto: o mundo deles deve ser também tão distante… E longínquos assim, na vez passada tomaram banho de lama. Fotografei-os como se filma quando o homem pousa na Lua. Fico assustado, sim, sharpay, sharpay. Que mundos distantes!
E, num milagre esplendoroso, eles caminham juntos, riem, colhem flores, olham cobras e caçam preás assustadas. Quantos mundos distantes pousaram no Sítio esta tarde! Eu queria dormir, apenas.

Mas o cheiro de tudo me sobressalta: a cama e a pele de meu pai cheiram a meu avô em minhas memórias enevoadas, e não tenho acesso ao doce de leite, ao doce de leite de minha avó, Luiza, nem ao som terno ou ao afeto abraço de minha mãe. Em breve, meu pai e a neta pularão na piscina que eu não tive. Houve progresso, prosperidade, criada por Deus e pelo pai, que saiu dali para ganhar o mundo, aviador, o sonhador que não fala “sharpay”.

Um cão late, logo, não posso estar dormindo. Mas não faz sentido: vejo-me menino brincando com uma menininha loira, arteira, que anda pelo Sítio com ares de dona. “Patroinha”, é como lhe chamam os caseiros. Eu continuo à procura de barrigudinhos, peneira na mão e cabeça nas estrelas. A idéia é ser astronauta, daqui a algum tempo.

O que essa menina tem que gosta tanto de ser dona e de andar a cavalo? Meu irmão menino cruza por mim em busca de gaviões, minha mãe chama para a refeição… não faz sentido, são quatro da tarde, a mãe está morta, o tempo está louco, o avô – de facão na cinta – cruza os umbrais da porta (sempre procuro em sua algibeira seu relógio de bolso, sempre). A avó e o doce de leite, não acho. Nem mesmo o cheiro. Enquanto escrevo, a filha entra no quarto suada, querendo saber da roupa de banho. Pega a chave do carro e some apressada. Me critica por não ir para a piscina. É, já não sei se durmo ou acordo.

Os avôs têm dificuldade com os nomes, é certo. Mas o avô de minha filha brinca com ela, e já lhe deu um cavalo, depois uma potrinha, e toma banho de lama. A figura de meu pai novamente me desafia: que tipo de avô eu serei para meus netos? Não bastassem seus feitos profissionais quase miraculosos, agora não mostra qualquer pejo ou constrangimento em misturar-se à lama como faziam os porcos de que cuidou para poder estudar o segundo grau. Não se percebe nele qualquer vacilação para puxar o cabresto da mula. A menina não sabe, mas seu dedicado pajem tem Doutorado em Educação na Espanha. E quanto ao cabresto, sabe puxá-lo desde menino, quando no lombo da mula levava banana e aipim, melado, batatas. A única coisa perene é a mula. Sim, a mula é que não muda. O homem à frente do cabresto construíu-se, a carga no lombo da mula não é mais o fruto da terra, mas o fruto do ventre projetado no etéreo. Não é mais a herança da terra, mas a dos próprios lombos do lavrador que queria ser doutor, estudar, fazer-se grande e fez-se. Eu fico no ar condicionado, preciso dormir, é claro. Enfim, lembro de meu pai, anos atrás, sempre dormindo nas tardes de domingo. Enquanto isso, meu eu menino e minha filha correm pra piscina. O avô presente vai junto deles. O menino loirinho se assusta: “Como é que construíram aqui, tão rápido, uma piscina?” Ouço uma voz alegre a berrar pela menina. “Que avô arrumou essa loirinha?”, penso não sei se “eu” ou meu “eu menino”. Avô moleque, aviador, maluco. Eu serei astronauta, um dia.

E, talvez daqui a trinta anos, uma mulher loira e muito interessante aterrisse no Sítio algum veículo voador do último tipo. Dele descerão meninos e meninas, e meu eu idoso quererá segui-los pelo meio do mato ou do que tivermos construído ali perto. Minha neta ou neto terão nomes ou coisas cuja tormentosa pronúncia me fará voltar no tempo.

Sentarei, sereno, na roda dos homens velhos. Serei um sábio. Olharei meu avô e meu pai e serei um deles, e terei no semblante a dignidade estranha dos homens do campo. Tomaremos café. Minha avó e minha mãe trarão doce de leite e um bolo. Enquanto isso, meu pai menino, meu eu loirinho e Luísa, a menina, e o Lucas, correrão pelo lugar em companhia das crianças que trará o tempo. O mesmo tempo que me fará perder o medo da lama, como não tinha antes. As mesmas crianças que sentarão um dia na roda dos velhos, comigo, com meu pai e meu avô sereno. Seus “eus” adultos.

Naquele tempo, como outrora, os meninos e as meninas, no quintal, no mato, na água, estarão brincando.