A Final da Libertadores e os Concursos Públicos

por William Douglas

Eu estava lá, com meu manto tricolor. Se você é tricolor, sabe o que eu senti. Se não é, pode estar dando uma risadinha. E, por ela, obrigado.

Há muito tempo eu não sentia na pele o que senti naquela fatídica quarta-feira. Tive dificuldades graves para comprar o ingresso (aliás, uma vergonha o que fizeram com a torcida), saí de casa, senti frio, tive os desconfortos do caminho e da demora. Resumindo, fiz minha parte, meu esforço. E depois de um jogo longo e emocionalmente traumatizante, perdemos.

Senti um gosto familiar na boca: perder. Aquela sensação de oportunidade desperdiçada, aquele desespero de imaginar quando ocorrerá outra chance de fazer a mesma coisa que não foi feita agora, ou chance ao menos parecida; quanto vai custar para ela aparecer, esperar e pagar o preço alto de chegar até uma final. Pior, além do gosto amargo de chegar tão perto e não levar, a certeza de que, no dia seguinte, todos os olhares, risinhos e ironias estarão voltados para você dizendo: você não conseguiu, não venceu, não foi bom o bastante.

É isso aí. Perder dói, ter de enfrentar o olhar e o coro dos flamenguistas no dia seguinte é um extra inevitável, mas o fato é que, excluída a dor de ver o Fluminense não vencer, encontrei, naquele dia, mais uma vez, no fundo de minhas reminiscências, dores que pensei que nunca mais iria sentir. Perder, perder, perder. Revi a vergonha e a frustração, o sentimento de inutilidade, de humilhação, tudo de ruim que se passa e se marca em nossa mente e na nossa alma quando ouvimos um “não”, quando ficamos por um décimo, quando perdemos na última prova. Quando, simplesmente, não ganhamos o que fomos buscar.

E, entre a frustração compartilhada com quase cem mil co-irmãos de sangue grená, branco e verde, como num relance tão surpreendente quanto lembrar dos concursos em que fui reprovado, também surpreendentemente surgiu algo que os concursos e os 42 km da maratona terminaram por ensinar: só perde quem joga. Só quem chega a final tem o direito de sentir essa dor tão grande. E, é claro, sentir dor é para os fortes. Os fracos desistem, os fracos não chegam. Então, misturada a uma dor infinita, decidi que a próxima palestra – que seria logo no sábado, na Feira do Concurso – seria ministrada com a camisa do meu time. E não deu outra: cheguei sob uma educada, mas constante saraivada de risinhos e ironias, e, claro, da solidariedade de meus compatriotas de time. Ao começar, pude dizer o que levei muito tempo para aprender: tenho orgulho de ter perdido, porque tenho orgulho de ter jogado.

E é essa sensação, caros concurseiros, que espero decalcar em sua alma, sua mente e seu corpo, para que – ao perder (e provavelmente você vai perder várias vezes) – não se sentir menor, devedor, incapaz, fraco, digno de pena, ou alguém que poderia ter vergonha. Todos esses sentimentos vêm quando não vencemos uma batalha ou não passamos em uma prova ou concurso. Mas, lembro a você, só perde quem joga.

Tem muita gente que ri dos concursandos e não tem (escolha a palavra que quiser para preencher aqui) ________ de ir fazer as provas. Tem gente que não sonha, tem gente que não luta, que não estuda, que não se inscreve, que não chega lá com o que tem nas mãos e na mente para tentar vencer. E, já disse isso nos meus livros tantas vezes, cada derrota ensina como não perder na próxima, cada queda ensina como e onde melhorar para o próximo desafio. Daí, só quem ainda não entende nada sobre concursos pode não se permitir, não entender ou não se orgulhar de uma reprovação, de uma derrota, já que elas fazem parte do processo de aprendizado, do processo de aprovação.

Só perde quem joga. E cada vez que se joga se fica mais forte e se pode ficar ainda mais sábio para o próximo certame.

Então caríssimos, perdoem-me tocar no assunto do meu time, mas queria dizer que senti de novo o gosto acre, amargo, pedregoso, cinzento da derrota, da ironia e desconfiança alheia. O gosto de ver alguém torcendo contra e você não vencer apesar disso. O gosto de ver o árbitro não fazer bem a sua parte (e nos concursos a gente, vez ou outra, passa por coisas semelhantes). Mas, de todo o gosto, me lembrei também do gosto dos concursos, onde, mesmo perdendo tantas vezes, acabei vencendo um dia. Como você que me lê há de vencer também, ao tempo e preço exatos, depois da caminhada longa, difícil, mas ainda mais fácil do que desistir da caminhada.

Falo nos meus livros sobre as técnicas de estudo, organização e provas, mas, aqui, falo do combustível: a vontade de caminhar, de vencer, de chegar, de levantar a taça. Essa vontade precisa estar presente e ser renovada a cada dia, pois só assim a gente agüenta a pressão de tudo e de todos, a começar pela nossa  própria e inadequada pressa.

Senhores concurseiros, de todos os times e torcidas, eu vos convoco para perder com alegria e orgulho, quantas vezes for preciso, pois, ao final da longa jornada, comemoraremos juntos seu merecido campeonato. Vocês serão todos campeões, no tempo próprio. Todos os que não morrerem, não desistirem e não deixarem de se adaptar, serão campeões e poderão servir ao povo brasileiro. E espero que sirvam bem, pois, no final das contas, este é o lugar onde vivemos – nós e nossos filhos.

Fora isso, tenho ainda algumas boas notícias.

Não existe hora para perder. As derrotas chegam quando chegam. Não tem isso de já venceu o São Paulo e o Boca Juniors, agora não pode perder. Pode sim. Pode perder por um centésimo, ou depois de anos, ou depois de 28 concursos. A única coisa que não pode é desistir, não se aperfeiçoar, pois senão, não passa.

A torcida contra não conta. Não se preocupe se alguém torce contra, ou não acredita. Seja solidário com aqueles que não têm seu próprio time na final para torcer, e ficam olhando você jogar seu jogo. Se torcerem a favor, seja grato; se torcerem contra, seja misericordioso. E jogue seu jogo. Se você vence e torceram por você, é lindo; se não torceram, é irrelevante; e se torceram contra e você perdeu, que triste, alguém ficar feliz com a derrota alheia. Triste, mas também irrelevante. Alegre-se por estar jogando.

Acreditar não basta. O grito de confiança “Eu acredito” ecoou toda a semana e durante o jogo, mas não adiantou. Que isso nos sirva de alerta. É absolutamente necessário acreditar, ter fé, motivação, mas também é preciso fazer os gols. Você precisa acreditar em você, mas tem que fazer os gols! Acredite, mas estude; acredite, mas treine; acredite, mas vá fazer as provas; acredite, mas corrija as falhas. E, se for a final da Libertadores, acredite, mas faça os gols em número suficiente. O Fluminense conseguiu fazer dois e ir para a prorrogação, mas parou. Não adianta: demore o quanto demorar, você precisa fazer todos os gols, todas as revisões, todas as provas, ler toda a matéria, toda a legislação… ou não leva a taça.

A vida continua.  Dizem que a pessoa muda até de sexo, mas não muda de time. Qualquer que seja a frustração, amanhã eu vou outra vez vestir meu manto e cantar que tenho orgulho de ser tricolor. Do mesmo jeito, ninguém consegue deixar de ser quem é. O máximo que podemos fazer é melhorar o que somos. Você viverá com você o resto da vida, e que esta seja uma das razões para cuidar bem de você, ser gentil consigo e com seu futuro. Qualquer que tenha sido o resultado do último concurso, por favor, vista a camisa e continue no jogo.

E há notícias ainda melhores:

Há mais concursos do que Libertadores. Sim, Libertadores é uma por ano, e não é nada fácil conseguir o direito de disputá-la. Nos concursos, você tem oportunidades aos montes, a ponto de precisar somente focar em quais vai apostar. E  tem os requisitos legais para se inscrever. Você pode tentar vários por ano, todos os anos.

Nos concursos, quem ganha sai. Imagine uma Libertadores sem o São Paulo, o Boca, Flamengo, Vasco, Grêmio, Internacional… e LDU. Naturalmente seria muito mais fácil vencer, não é? Na Libertadores, quem ganha volta depois para lutar por mais um título. Nos concursos, não. Quem passa já resolveu sua vida e, quando muito, fará outro concurso, jamais o mesmo. Logo, se você ficar na “fila”, estudando e se aperfeiçoando, cada vez haverá mais vagas para você, já que os melhores, os campeões, não voltam para o próximo.

No concurso, só depende de você. O goleiro poderia até pegar o pênalti se eu o batesse, mas teria que correr até o canto para fazê-lo. Eu não entendo como alguém pode chutar a bola no meio do gol, não entendo. O bom do concurso é que você não depende de outra pessoa para vencer, não tem que ficar apenas assistindo. Quem saber mais? Eu jamais colocaria, no meio da prorrogação, um defensor em campo. Eu colocaria um atacante, eu ia querer fazer mais um gol! No concurso, você não depende de outro técnico. O técnico é você. Você escolhe o curso, o livro, a apostila, o concurso, você escolhe tudo… e pode jogar, entrar em campo, bater os pênaltis. Mais trabalhoso sim, mas muito mais seguro.

Quase para concluir, um alerta: o jogo se decide em campo. Eu tive um dos prenúncios dos riscos funestos nessa final quando alguém disse que o LDU jamais venceria por que vem do Equador… e o Equador nunca venceu uma Libertadores. Ora, eu conheço isso: tem gente que diz que negro, pobre, mulher separada e com filhos, pessoas que fizeram escola pública, da favela, morador de rua ou qualquer coisa que dificulte, “não passam em concurso”. Já ouvi mais de uma vez que “ninguém dessa família dá em nada”, ou desse bairro, ou dessa isso, ou aquilo. Senhores, o LDU pode ter vindo de onde veio, mas veio e levou a taça. Fez sua parte, do melhor jeito que podia, e conseguiu o que queria. Nesse passo, nunca aceite alguém dizer que você, por qualquer razão, não pode sonhar ou melhorar de vida. Que o LDU nos inspire a não aceitar que digam, antes do jogo, que não podemos fazer isto ou aquilo. Só quem joga pode perder… só quem joga pode vencer. Jogue. Ou, como diria a Nike, just do it.

Morador de rua também pode passar. Esta semana soubemos de um morador de rua que passou em concurso, o Ubirajara, no Recife. Que ele nos inspire. Não ache que “porque ele passou, agora eu tenho que passar”, não se pressione assim, seria um erro. Pense no moço como um exemplo a mais a ser seguido. Ele conseguiu superar as dificuldades pessoaisdele, você vai conseguir superar as suas.

Ainda sobre a Libertadores, escrevi outro artigo, tratando da surpreendente derrota do Flamengo para o América do México. Lá, abordei alguns pecados capitais que devemos evitar na vida, nos jogos de futebol e nos concursos.

Para terminar, convido a todos a dar suas opiniões, a conversar, a falar sobre suas derrotas e sucessos por aqui. Vamos nos irmanar nessa jornada. Mais que isso, convido você a jogar o jogo, e, qualquer que seja o resultado do momento, a continuar em campo. Eu não sei se o Fluminense vai vencer uma Libertadores um dia, não depende de mim. Mas sei que qualquer um pode passar em concursos, se jogar o jogo. Basta fazer as coisas certas, do jeito certo, pelo tempo certo. O que são essas coisas? Bem, vamos falando sobre isso aos poucos. Para que a pressa? Concurso não se faz para passar, diz o mantra, mas até passar, ora.

Bom jogo.